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«Vor der Morgenröte» (Stefan Zweig: Adeus Europa) por Roni Nunes

O título português para este filme, na senda do internacional (Stefan Zweig – Farewell to Europe) parece tentar colmatar uma lacuna deixada pela própria obra – onde o original, literalmente “antes do amanhecer”, vira Stefan Zweig: Adeus Europa. O objetivo é estabelecer um nexo entra a trajetória do escritor com o que se passa atualmente no Velho Continente.

A realizadora alemã Maria Schrader selecionou alguns episódios da vida errante de Stefan Zweig (vivido por Josef Hader), um dos escritores mais populares do período entre guerras. Judeu, Zweig fugiu da Alemanha de Hitler nos anos 30 e viveu em permanentes deslocações – com períodos maiores de estadia no Brasil, na Argentina e nos Estados Unidos.

Schrader não está interessada em storytelling, numa biopic tradicional ou, sequer, em procurar emoção – opções que, em si, não são boas nem más. Os episódios que ela seleciona para abordar não se devem à sua relevância sentimental ou biográfica e são, na maior parte, ausentes de qualquer conflito. São cerimónias de homenagens, conferências com jornalistas, diálogos com amigos, reencontros com familiares (num destes o filme tem um raro sopro de vida graças a Barbara Sukowa): a ideia é retratar a vida interior do escritor – focando momentos-chave onde se foi criando nele o “espírito” que justificou a sua drástica (e igualmente desdramatizada) decisão final. 

O filme abre com um plano com um ramo de flores exuberantemente coloridas a tomar todo o ecrã: estes cinco segundos serão os melhores do filme – introduzindo o universo tropical para onde Zweig se deslocou com um raro aspeto de criação visual imaginativo em todo o filme. Também há a sequência final, mostrada através de um espelho. Mas isto até Murnau já fazia.

A obscura simbologia do trote dos cavalos que separa o primeiro do segundo “episódio” serve para anunciar que a mediocridade mascarada de esperteza autoral será um flagelo permanente. Para sustentar a suas opções narrativas e estilísticas, Schrader não consegue desenvencilhar-se de personagens vazias de carisma e com diálogos sem leveza ou inteligência – compondo longas sequências para oferecer a partir delas um conteúdo miserável.

Voltando ao primeiro parágrafo, o título internacional/nacional é uma fraude. Será necessário um grande exercício de imaginação do espectador para traçar a ligação que existe no ecrã com o que se passa atualmente numa Europa cuja desagregação horrorizaria o escritor – e com a vida do qual faria todo o sentido um paralelo num filme decente. Marcado pelo desperdício de um terrífico pano de fundo histórico, fica a sensação de que se convidou o espectador para um banquete e ofereceu-se-lhe restos do McDonald’s.

O Melhor: o primeiro plano, que dura cinco segundos (mais ou menos)

O Pior: a mediocridade generalizada

Roni Nunes



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