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«Grüße aus Fukushima» (Fukushima, Meu Amor) por Hugo Gomes

À primeira vista, Fukushima, Meu Amor tem como ponto partida o mítico filme de Alain Resnais. Em primeiro lugar, ambos especificam um desastre em terras nipónicas – uma Hiroshima devastada pela bomba atómica lançada pelos norte-americanos durante a Segunda Guerra Mundial no caso de Resnais,  o acidente nuclear que ocorreu após um terramoto e tsunami que lançaram o caos na cidade-título no filme de Doris Dörrie. Mas as semelhanças não ficam somente pelo cenário / título, mas sim em como o passado assume o seu peso na jornada de duas personagens que gradualmente debatem os seus fantasmas – esses maus espíritos que se agarram e dificilmente se vão. 

A obra de Dörrie arranca com uma jovem alemã (Rosalie Thomass) que sob um pesar de sonhos desfeitos viaja para o Japão, mais concretamente a dita “cidade-fantasma”, para ter o contacto com a desgraça total de forma a amenizar o seu próprio sofrimento. Um ato egoísta iludido na solidariedade, que logo cedo faz com que a protagonista ceda à sua realidade: “não passo de uma mulher branca, de classe média e alemã”. Neste momento, o filme torna-se claro e preciso na sua jornada: a cineasta germânica não estava interessada em delinear mais um caso de “culpa branca”. Ao invés disto, prefere abordar a sua experiência pessoal. 

Segundo a realizadora, tendo amizades no Japão a notícia do desastre de Fukushima a fez partir num ato solidário, gesto que a fez entender o quanto pequenos e insignificantes somos perante ao sofrimento alheio – assim como privilegiados os europeus são. Exatamente como Emmanuelle Riva em Hiroshima, Mon Amour, que tentava convencer Eiji Okada, o seu amante japonês, que entendia o sofrimento da cidade em ruínas, ao que este respondia persistentemente “tu nada viste sobre Hiroshima” – uma frase intercalada por imagens reais do cenário. 

Fukushima, Meu Amor não se torna evidente perante esses propósitos, mas assim apercebemos dessa linhagem quando a nossa protagonista revela, por fim, o seu “grande” pesar para com uma habitante da cidade (Kaori Momoi) – depois da personagem e do espectador testemunharem as vivências da nativa. A sua tristeza, a desgraça da jovem alemã, é despertada e automaticamente dissipada. Não é nada, em comparação do que esta “gente vive” e que mesmo assim persistem em caminhar perante um pesado passado. “Tu nada viste sobre Fukushima”, uma frase não existente, mas que tão bem poderia integrar neste enredo com tendências de um neorrealismo disfarçado. 

Doris Dörrie constrói um filme positivo em cenários negativos, um improvável “feel-good movie” que nos faz sair da sala a apreciarmos os nossos percursos, a fazer tréguas com os nossos fantasmas e a reconciliar com aquela felicidade que sentimos inatingível.
 
Depois temos o espectro de Yasujiro Ozu a pairar nesta narrativa e no espectador, indo daquele plano à beira-mar convidativo para com as memórias de A Viagem a Tóquio até ao signo de “a felicidade não se espera, cria-se”. Neste caso, recria-se -  como a reconstrução das nossas recordações. Um comovente filme que nos faz querer acreditar na reencarnação como forma de anestesiar dores de alma.

Hugo Gomes



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