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«Toni Erdmann» por Paulo Portugal

Maren Ade tem um saco de próteses falsas e fantasias que desembrulha, interliga e insufla em Toni Erdmann, o seu terceiro filme, transformando-o naquele que é um dos momentos centrais do cinema  europeu e, claramente, um dos filmes (senão o filme) do ano. Um registo que foge à regra, ainda que talvez não estranho a um Miguel Gomes. De resto, ela elogia-o e co-produziu os seus últimos filmes.

A alemã Maren Ade foi uma das estreantes em Cannes este ano com o provocador Toni Erdmann, seguramente um dos filmes mais refrescantes da safra vintage da Seleção Oficial. Contudo, bem o sabemos, esta história familiar sobre um pai que obriga a filha a sair da caixa saiu da Croisette de mãos a abanar, pelo júri liderado por George Miller; exeção feita ao júri FIPRESCI que lhe atribuiu o prémio respetivo, isto para além dos júris das diversas revistas de trade que o votaram como preferido. Também já se sabe que a justiça foi cumprida nos recente European Film Awards, em que Toni fez o pleno das suas cinco nomeações, consagrando-o Filme Europeu do Ano, a que se juntou o prémio de realização para Maren, acumulando com o de argumento, para além da interpretação masculina para Peter Simonischek e feminina para Sandra Huller.

A sua força reside precisamente na rejeição (pelo menos à superfície) de análises intelectuais profundas e na opção de uma abordagem ligeira (também só à superfície). Como o contagiante e insuperável momento light proporcionado por Sandra Huller quando se entrega a uma interpretação do tema de Whitney Houston Greatest Love Of All, a arrancar o aplauso espontâneo da sessão de estreia mundial em Cannes. Sim, o momento que ocupa o nosso zénite emocional do ano.

É precisamente neste imprevisível desconforto que sabe tão bem, nesta comédia com uma piscadela de olho ao drama inconfessado, que reside, afinal de contas, a enorme força de Toni Erdmann, o tal filme que nos embala ao longo de quase três horas sem que demos por isso. Ora é também esse o cinema simples, desempoeirado e inteligente de Maren Ade, aquele que nos temos tanta dificuldade em fazer, que toca quase todas as notas certas. Lembram-se do naturalista e luminoso Todos os Outros, que arrebataria em 2009 o Prémio do Júri em Berlim? Para superar isso nada como uma naked party. Sim, também temos uma. Assim nos emociona, comove e diverte. E quando recebemos tanta variedade de sensações ao longo de tanto tempo, é sinal que estamos em presença de algo único.

Este é o filme sobre um personagem, sobre Toni Erdmann, a invenção em que se refugia o reformado professor de música Winfried (Simonischek), optando por mudar algo na sua vida depois de ver partir do mundo dos vivos o seu velho. Ao procurar o sentido da vida tenta que a sua filha, a atinadinha Ines (Huller), largue o telemóvel e a atitude executiva e artificial e acorde para a vida. Intromete-se assim na sua carreira profissional assumindo-se como Toni Erdmann, adido de um embaixador e coach, provocando-lhe o embaraço e a vergonha. Temos portanto um filme sobre máscaras, sejam elas quais forem, a multiplicarem as narrativas e a subverterem os códigos. Assim pretende, e consegue, Erdmann destruir todas essas barreiras, como que a piscar-nos o olhos àquilo que todos gostaríamos de ter lata para fazer. Ainda assim, aqui fica a dica.

Maren Ade faz aqui um exame bastante incisivo à alma conservadora, ao mundo artificial da bolha insuflada pelo credo do eterno crescimento. Como se colocasse um glitch, uma centelha letal de humor corrosivo nessa espécie de Death Star corporativo. E é ao vê-la rebentar que teremos o mais delicioso momento de humor. Pois, é esse o greatest gift of all, que nos chega com a inesperada chancela de Whitney Houston. Bem feito.

Paulo Portugal



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