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«Robert Mapplethorpe: Look at the Pictures» por Paulo Portugal

Vejam as fotografias!”“Look at the pictures!” Sim, “vejam as fotografias”, gritava um membro da comissão que acusava e descrevia o trabalho do fotógrafo Robert Mapplethorpe como “pornográfico”, “sem arte”, ofensivo e, por isso mesmo, desnecessário ao desfrute público. A dupla Fenton Bailey e Randy Barbato, com trabalho num registo próximo, por exemplo, em “Party Monster” ou “RuPaul’s Drag Race”, convidam-nos para esta viagem às profundezas do universo temático de Robert Mapplethorpe onde a presença de genitália masculina e a exacerbação de um certo masoquismo ajudou em parte à sua afirmação como fotógrafo e personalidade do mundo artístico nova-iorquino, sobretudo entre os anos 70 e 80. Um percurso fulgurante de um fotógrafo que soube a aproveitar e vender a sua imagem.

Assumidamente gay, mesmo quando isso ainda não era consensual, Mapplethorpe afirmou-se como uma espécie de esponja que tudo absorvia e apropriava. Isto numa altura em que Nova Iorque era uma espécie de balão de ensaio de todas as tendências, entre o final dos anos 60 e toda a decadente década de 70. As fotos moldam o seu percurso, as suas polaroids, os nus que acabaram por definir quem era quem, se fosse ou não fotografado por Mapplethorpe.

O documentário de Bailey e Barbato é precisamente isso – o olhar as fotografias. Muitas, todas. Parte delas revelada pelo arquivo Mapplethorpe, do Instituit Getty, em LA. Uma viagem que começa na vida pacata familiar e pacata do pequeno Robert, no seio de uma família religiosa, a sua evolução para uma escola de arte, a afirmação do sexo e a explosão pelo lado mais explícito da fotografia. Fotógrafo prolífico, fotografou tudo e todos e foi absorvendo esse caldeirão de estímulos num corpo artístico virado para a procura, para o choque e para a nossa confrontação.

Desde os muitos nus lascivos, em que o próprio Mapplethorpe se incluía. São relevantes o seu auto-retrato com um chicote a sair do ânus ou as fotos, no limite, do ‘fist fucking’ no ânus ou de um pénis a urinar para uma boca, na sua exploração da temática sadomasoquista. Mas há outras, como a sua coleção de flores, bem mais pudicas, ainda assim com algum toque erótico. Posteriormente, já nos anos 80, ganharam revelo as fotos de celebridades que se faziam pagar para ganhar o selo Mapplethorpe. Ou seja, a evolução do fotógrafo indie ao promotor ambicioso.

Apesar dos seus inegáveis méritos, “Robert Mapplethorpe: Look at the Pictures” é incompleto. Pela simples razão de que não existe uma declaração que seja da sua ex-companheira Patti Smith, ao contrário da presença de muitos dos seus amantes, como Sam Wagstaff, Hemult Newton, entre outros. Curiosa é também a presença do irmão Edward que assume algum desencanto pela forma distante, e excessivamente materialista, quase paranóica, do último período da sua vida. 

Paulo Portugal



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