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«Vangelo» por Hugo Gomes

A crise dos refugiados contraiu tal dimensão mediática que é praticamente impossível ficar indiferente ao tema. Em consequência disso, são “às centenas”, as obras que são lançadas este ano e que deambulam sobre as condições desta gente. Felizmente, há quem o faça bem, como também, a quem os explores de maneira quase pornográfica. Nesta última opção encontramos Vangelo (em Competição Internacional do Doclisboa) sobre um ator e encenador italiano - Pippo Delbono (conhecido pelo seu desempenho em Eu Sou o Amor, de Luca Guadagnino, ao lado de Tilda Swinton) - que após a morte da sua querida mãe e dos diagnósticos assombrosos da sua saúde, decide aventurar-se entre os refugiados para … sabe-se lá o que se passa na cabeça dele … encenar o Evangelho.

Antes disso, bem, após algumas sequências longas e narcisistas, filmadas por telemóvel sobre a sua pessoa, Pippo afirma que para consolação da sua dor havia encenado um chamado “Evangelho dos Ricos”, uma peça trabalhada com muitos dos seus amigos artistas, que segundo o realizador, são burgueses que desconhecem o mundo real. Bem visto, sim senhor, se não fosse o facto de logo a seguir Pippo afirmar que pessoas infelizes devem se manter próximo de pessoas ainda mais miseráveis para se sentir na melhor das formas.

Solução, o encontro com um grupo de refugiados para confortar o seu pesar. Esta comparação entra logo em conflito com a moralidade do projecto, até porque a restante duração do documentário faz-se com puro bullying. Pippo é um burguês privilegiado que encontra nos refugiados o seu ar de graça para simplesmente troçar, quase obrigando-os a citar frases italianas, o qual se entende que estes homens não percebem nem sequer uma palavra daquilo, até à natureza religiosa cristã da peça sobre vários homens, que sem sombras de dúvidas, são muçulmanos. A persistência nessa evangelização está em perguntas como “Conheces Jesus?”. Será Pippo um jesuíta?

O incomodo é um sentimento vivido por estes homens com vidas destroçadas, os respetivos olhos falam por sí. Homens munidos de coragem para deixar para trás as suas vidas anteriores e aventurarem-se nas mais arriscadas façanhas (exemplo, é o único relato de vida destes, Safi, que com o seu péssimo inglês torna-se no ponto alto da obra). Por entre “torturas” (um homem residido minutos sem fim no alto mar para citar textos do Nazareno), até a interrogatórios frios e voyeuristas, Pippo, sob uma sugestiva respiração ofegante, faz de “domador de feras” num circo que ele próprio montou, para além disso, todo este registo funciona numa espécie de “snuff film”.

Para finalizar, este homens cujo futuro é incerto, muitos deles com vistos negados e recambiados aos seus países de origem (qual? O filme nem interessa por isso), Pippo, revela o seu pensamento mais egoísta de puro conformista burguês, “estas pessoas são felizes porque tem música e dança”, ou “como estas pessoas não tem medo da morte, sabem o que é viver”. Mas que raio de “moralismo” é este?! Pippo pega nos refugiados para o seu próprio entretenimento (existe também alusões sexualmente fantasiosas com estes mesmos homens), depois reforça a sua miserabilidade humana, como fosse o mais desgraçado de todo este Mundo, esquecendo que é um privilegiado homem branco ocidental.

No final temos a sua “querida” Última Ceia, sob o som de uma música em looping “I Feel Good”, sim, bastante apropriado, indeed!. Pelos vistos, encontrei o Je m’appelle Hmmm … deste ano [ler crítica aqui e aqui], mal executado, mal idealizado e imoral no seu sentido de oportunismo.

O melhor – O relato de Safi

O pior – estar integrado na Competição de Festival Internacional que publicita diversas vezes preocupação com temas actuais.

Hugo Gomes

 



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