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«Lion» (A Longa Viagem para Casa) por Paulo Portugal

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Nem todas as histórias baseadas em factos reais têm necessariamente de corresponder aos clichés do género. Seja a acentuar o inevitável aspeto emocional destinado a fazer chorar as pedrinhas da calçada ou adornar o ramalhete pela inclusão de estrelas de renome. E o problema inicial é que “Lion” (“A Longa Viagem Para Casa”, na versão portuguesa) integrado numa das sessões de gala do Festival de Londres, sobre o destino de um menino indiano perdido em Khandwa e que acaba por ir parar às ruas de Calcutá, a mais de 1600 kms de casa, demorando mais de duas décadas para encontrar os pais, até navega sob essa bandeira. Felizmente, transforma-se num dos filmes mais intensos e emotivos do ano e uma “pré-consideração” para os Óscares.

No entanto, à partida, uma conjugação de elementos não agoirava o melhor. Desde logo, a origem melodramática do tema, reforçada pela entrega do projeto a um estreante vindo da publicidade e cedendo até à presença de uma mega-estrela como a australiana Nicole Kidman, aqui ao lado do londrino Dev Patel, embora de ascendência indiana, a afirmar-se como um valor a ter em conta para o futuro. Por isso mesmo, saudamos a surpresa ao constatar que nada se passa como o eventualmente esperado. O resultado acaba até por ser a comunhão de uma experiência intensa, vivida com o pulmão algo apertado e os olhos a doer de emoção.

A primeira parte do filme decorre integralmente na India, em tom profundamente realista, e integralmente falado em dois dialetos indianos, bengali e hindu. Sunny enche o ecrã de energia e talento natural, assim que o vemos na companhia do irmão Guddu (Abhishek Bharate) na sua deambulação para encontrar alimento, e depois, já perdido, num percurso que o levará a um orfanato e depois à adoção. Até aqui temos apenas um filme puramente indiano, que se vai ocidentalizando assim que Saroo chega aos novos pais adotivos na Tasmânia (Nicole Kidman e David Wenham, o Faramir de “O Senhor dos Anéis”).

De forma inteligente, Garth Davis consegue navegar a linha fina entre o melodrama piegas e uma história bem contada, sabiamente optando pela segunda via. Apesar de secundária, vulnerável e intensa Nicole Kidman, não destila um milímetro sequer de overacting. Ainda que o filme pertença a Dev Patel, a versão adulta de Saroo Brierly, também o autor do livro em que se inspira o filme, bem como, ou sobretudo, ao incrível Sunny Pawar, Saroo enquanto garoto.

É já com Saroo adulto, por volta do início do séc XXI, que o filme entra numa velocidade diferente, partilhando um ambiente mais familiar, já com uma namorada americana (Rooney Mara) e um estilo mais convencional. É com a descoberta do Google Maps que encurta à distância de um clique a navegação próxima da região onde morara em criança e, consequentemente, o desejo se saber o que sucedeu ao seu irmão e família, mas também a saber algo mais sobre si próprio.

É claro que tudo isto poderia correr bastante mal, mas não. Daí o tal frémito no peito numnarrebatador em que muitos na sala soçobraram à emoção. O mérito vai para o acerto do guião adaptado por Luke Davies (autor do avassalador “Candy”, com Heath Ledger e Abbie Cornish), mas também para uma rigorosíssima direção de atores. Até aqui tudo bem. Razão pela qual talvez não fosse necessário acentuar ainda mais a intensidade com um score musical destinado a um final enxugado a kleenex e ao apelo das organizações humanitárias.

O melhor: O realismo de toda a primeira parte passada na Índia

O pior: A inevitável exploração emocional na segunda

Paulo Portugal



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