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«Cézanne et moi» (Cézanne e Eu) por Roni Nunes

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Retratar a relação de amizade entre dois artistas do século XIX é um projeto de alta periculosidade e o que a realizadora Danièle Thompson tentou para afugentar o fantasma do academicismo de séculos de “dramas históricos” no cinema foi utilizar uma montagem de teledisco e uma narrativa não (muito) linear. No final da equação dois e dois não somaram quatro, mas Cézanne e Eu tem os seus momentos.

Paul Cézanne (vivido por Guillaume Gallienne) foi um típico herói maldito do ideal do Romantismo – movimento do início do século XIX cujo vasto guarda-chuva filosófico/comportamental estendeu-se pelo século XX a dentro. Rico, com um pai tradicional, abandona tudo em nome da arte. E, claro, foi recusado durante muitos anos pelo “Salão de Paris” e só no final da vida recebeu interesse mercantil pelos seus quadros.

Émile Zola (Guillaume Canet) experimentou uma trajetória diferente: vindo de família humilde, teve a sorte dos seus escritos, inseridos no realismo francês do final do século, caírem no gosto popular. O que significou uma vida de conforto com os mesmos burgueses que Cézanne desprezava. Apesar disto, entre altos e baixos, a amizade entre ambos sobreviveu à passagem do tempo.

Thompson entende que fragmentar é o oposto de entediar e o mesmo conceito que guia a montagem foi aplicado à narrativa. É notória a falta de convicção e o uso de clichés (que os harpejos hollywoodianos da banda sonora não ajudam a ludibriar) com que introduz com a velocidade de um TGV o desenvolvimento da amizade entre os dois.

A partir daí a coisa melhora, mas uma vez que este interminável vai-e-vem cronológico não serve em termos dramáticos, o filme vira uma colcha de episódios – onde os diálogos e dramas pontuais sofrem a omnipresente ameaça de vergarem sob o peso de carregar nas costas um filme sem propósito visível.

Depositando boa-fé na esperança de que não tenha sido concebido como um candidato a Cesares, Cézanne e Eu é um filme que não perturba ninguém mas, em se tratando de um retrato de artistas, reside aí o seu problema. Por vezes ensombrado pelo filisteísmo pós-moderno, tem um crédito final de cunho pedagógico que de forma alguma lhe surge como um corpo estranho.

O Melhor: quem nunca ouvir falar de Paul Cézanne e Émile Zola pode aprender alguma coisa

O Pior: falta acutilância

Roni Nunes



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