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«On a Milky Road» (Na Via Láctea) por Paulo Portugal

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Emir Kusturica gosta tanto de cinema como de se divertir. De resto, os seus filmes refletem precisamente esse lado de permanente disposição para a alegoria. Indiferente do que o espectador possa pensar. On the Milky Road é isso. Uma comunhão permanente de garridas sensações visuais, como se misturasse animação com cinema. Só que está (quase) tudo ali mesmo, no ecrã, entre penas que voam, os espirros de sangue e as balas perdidas, em pleno conflito entre a Sérvia e a Bósnia. Com os truques disponíveis. Como pedaço de cinema, este regresso colorido de Kusturica tem um poder magnético que nos provoca e seduz em partes iguais.

E começa logo a abrir. Ele são gansos que correm, sangue que corre a jorros de porcos degolados, os mesmo gansos que se apressam a aterrar, todos lampeiros, numa banheira de hemoglobina, ou até um falcão que vigia a aldeia e que aprendeu a viver com o quotidiano das explosões da guerra infinita. Mas há mais, ovelhas que explodem num campo de minas, um urso que partilha com Kusturica uma tangerina e até uma serpente digital que irá abraçar a personagem de Emir, mas também a de Monica Bellucci. E há leite, claro. Talvez o ingrediente mais branco para lavar todo o sangue, o que é bastante.

Não interessa tanto se é um sonho do leiteiro Kosta (ele mesmo, Kusturica) ou realidade, pois a loucura daquela quinta servida por um relógio inconstante, uma ginasta retirada danada para a festa que é destinada a casar com o leiteiro. No meio deste arraial aparece ainda Monica Bellucci investida no papel de refugiada, num papel de toda a entrega. Mais relevante do que o rigor da história é o enorme gozo de ser levado neste constante delírio. Isto até que as coisas começam a tomar um ar mais sombrio. Afinal de contas estamos no meio de uma guerra.

Foi em 1988, com algo assim garrido, que Kusturica caiu das boas graças do mundo quando pintou a manta com o seu Tempo dos Ciganos. Agora, após um prolongado retiro da ficção, com quase dez anos, regressa com esta pequena prenda devidamente requintada pelo visual da câmara de Goran Volarevic. Pena é que no meio desta loucura, o romance entre o sexagenário Kusturica e a cinquentona Bellucci fique algo desbotado.

Emir pinta este quadro com graça e eficácia. Já lhe chamaram realismo mágico. A verdade é que mais nenhum cineasta consegue esta proeza cénica, devidamente envolta pelo habitual e histérico manto musical, mas sempre servido por uma narrativa espevitada que surfa essa tal magia e realismo. Como se fosse uma espécie da Alice no Pais dos sérvios. A verdade é que este cinema dá muito trabalho...

 

Paulo Portugal



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