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«Porto» por Paulo Portugal

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Até pode nem haver nada de muito novo nesta história de amor que marca também a estreia de Gabe Klinger no campo da ficção (depois do seu documentário Double Play: James Benning and Richard Linklater), apresentada aqui em San Sebastian na secção de Novos Realizadores. Mas é também esse momento de mútua entrega que o cineasta de forte veia cinéfila celebra com um forte sentido de cinema. Um projeto que começou com outra intenção geográfica (era para se passar na Grécia), mas que acabou por acontecer no Porto graças à intervenção do produtor Rodrigo Areias e facilitado pela produção executiva de Jim Jarmusch.

Esta é a história do breve encontro entre o americano Jake (Anton Yelchin, aqui no seu derradeiro filme antes da trágica e recente morte) e a francesa Mati (Lucie Lucas), em momentos irremediavelmente românticos captados no noturno e enevoado Porto. Eles são dois estranhos numa terra estranha que se encontram de uma forma mais ou menos ocasional numa escavação e depois num café acabando depois por partilhar uma intimidade de forma tão intensa que acaba por se fundir num certo déjá vu de sucessivos encontros.

Neste filme a dois temos ainda uma terceira personagem, secundária, com Françoise Lebrun, incontornável no clássico de Jean Eustache, A Mãe e a Puta (1973). De resto, essa referência terá toda a justeza, uma vez que se sente em Porto um certo tom de homenagem a esse mesmo filme, mas sobretudo a uma forma de fazer cinema de descoberta. Se bem que aqui com um Yelchin bem mais intenso e dorido, quase premonitório, bem diferente de Jean-Pierre Léaud nesse filme. Ele que refere a certa altura qualquer coisa como “Estamos a viver tudo, como se soubéssemos o que nos vai acontecer”.

Talvez por ser o filme de estreia, Klinger terá sentido necessidade de ‘brincar’ com algumas combinações de formatos com o 35mm, o 16mm, mas sobretudo, o muito eficaz Super 8 conferindo ao registo um grão e uma dinâmica de verité, próxima de Jean Eustache, e que funciona tão bem nas noites geladas e enevoadas do Porto. De uma forma talvez diversa, e possivelmente involuntária, sente-se também alguma vizinhança dos primeiros filmes de Jarmusch, como o errante Permanent Vacation.

Porto é então aquele tipo de filme contido (até na duração, apenas com 75 minutos), todo feito de emoção, com um erotismo feroz sublinhado pela entrega de Lucie Lucas. Porto não pretende sequer ser um grande filme, mas será nessa sua contenção que mais espaço alcança.

Paulo Portugal



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