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«Nocturama» por Paulo Portugal

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"Nada mais será como dantes!"

O filme-bomba de Bertrand Bonello pode já ser considerado o evento do festival de San Sebastian. Sim, aconteça o que acontecer, Nocturama já criou o seu buzz e acalenta legítimas expectativas para potenciais prémios. Bonello alcança aqui um enorme momento de cinema, numa rigorosa mise en scène, e em que dois dos momentos mais fortes do filme, e tão premonitórios, são sublinhados pela componente musical.

Muito se falou deste filme antes de ser visto, desde logo por se saber que lidava com os preparativos e a execução de diversos atentados em Paris por um punhado de jovens. Naturalmente, face aos atentados que a Cidade da Luz viveu a 13 de novembro passado o filme terá sofrido até alguma contenção, apesar de ter sido concebido e rodado antes da tragédia. Ainda assim, após um momento de alguma indecisão, Bonello decidiu avançar com a ideia inicial do projeto. E agora, quando o vemos à sua devida luz, percebemos que essa ligação com os atentados de Paris é apenas próxima, já que Nocturama funda a sua génese em outras raízes, sendo que essas não estão também totalmente afastadas de uma ideia de "paraíso" ou até de "inimigos de Estado". Mas o que importa dizer nesta altura é que se trata talvez um dos filmes mais pungentes que vimos este ano. Lá está, nada mais será como dantes, como diz a certa altura uma das personagens.

Nocturama divide-se em duas partes: o pré e o pós-atentado. Na primeira percebemos logo que não estamos na presença de quaisquer terroristas, mas sim de adolescentes parisienses da classe média. Mesmo sem conhecermos as suas ligações uns com os outros, percebemos gradualmente que esta démarche assenta no próprio momento vivido pela sociedade francesa, por uma certa descredibilização da realidade política e social. Como se de repente se regressasse um momento revolucionário de introspecção, com ecos prováveis no fim do Absolutismo, que resultaram na Revolução de 1789 ou do próprio rastilho de Maio de 68. Seguramente, uma espécie de provocação de Bonello diante do establishment actual francês e mesmo europeu. Uma coisa é certa, o atentado à estátua dourada da Joana D’Arc, junto ao Louvre, significando a Liberdade, deixa alguma margem de reflexão.

Mesmo sem nunca conhecermos, de facto, as motivações destes jovens, percebemos a sua angústia. Antes do atentado, mas sobretudo depois, em que o grupo se refugia ao fim do dia num centro comercial (um dos grandes armazéns da La Samaritaine, entretanto desactivado), onde passa a noite e onde cada um enfrenta à sua maneira as consequências do gesto coletivo. A este grupo junta-se também um casal de sem-abrigo que aproveita para ter o seu momento de luxo, convidado por um deles. Ele que momentos antes encontrara uma jovem na rua, numa breve prestação de Adèle Haenel, e momento-chave, em que lhe confessa que pressentira já que algo estava para acontecer.

É então neste lugar de grande consumo, rodados de marcas de luxo e manequins, que descortinamos talvez parte das intenções de Bonello, ao proporcionar um efeito de espelho que nos permita aperceber as nossas próprias contradições, mas também a solidão. Como Debbie Harry canta no tema da sua banda, Blondie: Call Me, i’m alive!

Será também aí que um jovem se apercebe que um manequim sem rosto se veste exactamente como ele; ele que acabará por se entregar a uma eloquente interpretação em play back de Shirley Bassey em My Way, prenunciando o que aí vinha: and now, the end is near, and so i face the final curtain...

 

Paulo Portugal



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