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«Lights Out» (Terror na Escuridão) por Hugo Gomes

Lights out

Lights Out é mais um exercício de terror sob o modus operandi de um The Babadook [ler crítica] ou Mama [ler crítica], ou seja, a sua base seguiu-se de uma curta, um mecanismo de susto que culminou numa prolongada ideia para uma longa. No caso de Babadook, o projeto tinha “pernas” para atingir o seu pico, mas ficou-se pelo interesse inicial, em relação a Mama, a sua situação é semelhante a esta criação de David F. Sandberg, os grandes estúdios levaram a melhor e injetaram a sua dose de cobertura mercantil. Mesmo tendo na produção nomes como James Wan (The Conjuring [ler crítica]) e o Roger Corman do novo século - Jason Blum (atualmente podemos referi-lo como o grande mentor por detrás dos êxitos do diptico The Conjuring e Insidious) - Lights Out é um produto que resiste à sua ideia de medo, infelizmente esticado por subenredos e pelos conflitos emocionais que este tipo de produção tresandam. 
 
A curta, produzida em 2013, rendia os seus dois minutos de duração com uma sugestão primitiva de medo, a escuridão. Quem tem medo do escuro? A resposta, muitos, mas muitos possuem uma fobia ao turn off das lâmpadas, o desaparecimento da luz, a dominância do escuro, sentimos receio naquilo que se esconde por entre as sombras. Desde o tempo dos homens primitivos que o tememos e é normal, mesmo nos dias hoje, como homem civilizado, ainda demonstramos esses receios, que em conjunto com a nossa natureza supersticiosa, geram os mais labiríntico medos. 
 
Sandberg sob um preciso e tão simples ato recriou o choque com o mundo noturno, onde a “escuridão” abraça-nos e nos deixam indefesos. Um jump-scare, assim descrevendo o minimalismo do Lights Out original, transformou-se numa autêntica salada de referências vincadas ao moralismo cristão (um individuo que ouve música metal é visto como um marginal social e incapaz de tomar responsabilidades), comummente presente nas produções norte-americanas, e nos elementos “apropriados” do J-horror. 
 
Tudo funciona de forma disforme, mas o exagero do referido e anterior minimalismo contrai um efeito inesperado, em certas alturas, muitas mais nas réplicas referenciais, Lights Out é comédia involuntária. E é pena que tal resulta nessa forma, o esforço de “assustar” não desgruda dessa comédia inequivocamente lançada e no desespero dos lugares-comuns. Infelizmente é essa a ordem do dia, até porque existe aqui indícios de transformar Lights Out, mais do que mero produto corriqueiro. Como por exemplo, Teresa Palmer é uma protagonista forte, o suficiente para a destacar fora do rótulo de sósia de Kristen Stewart, e a entidade antagonista, ao contrário de muitos que se converteram em ícones do terror, é necessariamente desprezível para que desejamos a sua “aniquilação”.
 
Porém, esses curiosos elementos não salvam Lights Out de ser um valente “apagão” de ideias de terror, é um exercício que se faz e desfaz nos momentos em que as luzes reacendem na sala de projeção. Quem tem medo do escuro? Não com filmes destes.
 
 

O melhor – Uma protagonista forte que desvia diversas vezes do pastiche

O pior – prevísivel, um curta minimalista transformou-se num mero filme de estúdio.

Hugo Gomes

 


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