Menu
RSS


«Julieta» por Hugo Gomes

Tudo indica que Pedro Almodóvar encontra-se incapaz de recuperar o seu estatuto após o malfadado Amantes Passageiros, aquele que seria o seu regresso à tragicomédia resultou numa espécie de caricatura de si mesmo. Com Julieta, anteriormente apelidado de Silêncio, e cuja alteração se deveu à futura produção de Martin Scorsese, tinha tudo para recolocar o cineasta espanhol no mapa, ainda mais com a presença do filme na tão desejada Competição de Cannes. A pressão era realmente insuportável, o escândalo dos Papéis do Panamá que trouxeram às manchetes jornalísticas o nome de Almodóvar, e ainda mais a acumulação de repudia que os cinéfilos do seu país têm ultimamente suscistado.

Infelizmente, Julieta funcionou como uma promessa. O resultado, esse, está muito longe das juras de "Pedrito", até porque o seu toque Midas que tão bem se sentiu em obras como Tudo Sobre a Minha Mãe e Fala com Ela, está há muito desaparecido. Temos sim o Almodóvar assumidamente clássico, mas temos simultaneamente um homem cansado, pouco inventivo e "encalhado" num universo que prometia ter deixado durante a estreia de A Pele onde eu Vivo. Aqui, Julieta é uma personagem dividida entre duas fases temporais narradas através de flashbacks e de diários "bressianos". Deparamos então com a sua juventude (Adriana Ugarte), o período que vive um romance com um pescador e cuja relação gera uma filha, e 25 anos mais tarde, quando se transforma numa mulher envelhecida (Emma Suárez, Tierra), determinada a esquecer os seus mais atormentados fantasmas.

É a revisão narrativa de Má Educação consolidando a subtileza de Abraços Desfeitos, porém, algo realmente falhou em todo este desenvolvimento. De salientar a sua estética presa aos parâmetros televisivos e a fraca aptidão na construção de personagens sólidas e fora dos esboços "almodoverianos" o qual parecem tomar. A sua coloração dá ainda a Julieta uma tendência de masturbação burguesa, até porque esta é a Espanha dos pseudo-cultos, dos sonhos retomados e encarados com imersivo optimismo e da austeridade como fruto fantástico de outros tempos. Tudo indica que esta longitude para uma Espanha real faça que os seus conterrâneos troçem de um dos mais mundialmente famosos realizadores do seu país.

Mas é bem verdade que não existe a necessidade de acorrentar-se ao realismo e esquivar qualquer hipótese de romantismo cinematográfico, nada disso. O pior é quando Pedro Almodóvar prefere fazer telenovelas estampadas em grandes telas, do que propriamente Cinema. O dramalhão trágico sem rigor e com um malabarismo escavacado. Um fracasso!

O melhor – A tentativa de ser o clássico Almodóvar
O pior – personagens fracas, registos empoeirados e uma direção quase "arraçada" de telenovela


Hugo Gomes



Deixe um comentário

voltar ao topo

Atenção! Este website usa Cookies.

Ao navegar no website estará a consentir a sua utilização. Saber mais

Entendi

Os Cookies

Utilizamos cookies para armazenar informação, tais como as suas preferências pessoais quando visitam o nosso website. Os cookies são pequenos ficheiros de texto que um site, quando visitado, coloca no computador do utilizador ou no seu dispositivo móvel, através do navegador de internet (browser). 

Você tem o poder de desligar os seus cookies, nas configurações do seu browser, ou efetuando alterações nas ferramentas de programas AntiVirus. No entanto, isso poderá alterar a forma como interage com o nosso website, ou outros websites.

 Tipo de cookies que poderás encontrar no c7nema?

Cookies estritamente necessários : Permitem que navegue no website e utilize as suas aplicações, bem como aceder a eventuais áreas seguras do website. Sem estes cookies, alguns serviços que pretende podem não ser prestados.

Cookies analíticos (exemplo: contagem de visitantes e que páginas preferem): São utilizados anonimamente para efeitos de criação e análise de estatísticas, no sentido de melhorar o funcionamento do website.

Cookies funcionais

Guardam as preferências do utilizador relativamente à utilização do site, de forma que não seja necessário voltar a configurar o website cada vez que o visita.

Cookies de terceiros

Medem o sucesso de aplicações e a eficácia da publicidade de terceiros. Podem também ser utilizados no sentido de personalizar widgets com dados do utilizador.

Cookies de publicidade

Direcionam a publicidade em função dos interesses de cada utilizador. Limitam a quantidade de vezes que vê o anúncio, ajudando a medir a eficácia da publicidade e o sucesso da organização do website.

Para mais detalhes visite http://www.allaboutcookies.org/

Secções

Quem Somos

Segue-nos

Contactos