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«Fai Bei Sogni» (Sonhos Cor-de-Rosa) por Hugo Gomes

Sweet Dreams, bons sonhos segundo a tradução literal, são as duas exatas palavras que desencadearam o prolongado pesadelo que Massino vive. Proferidos pela sua mãe, o maior "tesouro" da vida do jovem rapaz, foram as últimas ouvidas pelo mesmo da sua boca. A tragédia foi só o início, porque o pesar, o desespero e a eterna fase de negação dominaram a vida de Massino, que agora adulto continua a enfrentar tais demónios interiores, "belfagors", como o próprio invoca, instalados nos seus mais profundos pensamentos.

Adaptação do bestseller de Massimo Gramellini, um dos maiores êxitos de vendas da literatura italiana, Sweet Dreams é um filme inesperado por parte do veterano Marco Bellocchio, o mesmo realizador que chegou a fazer Mussolini a apaixonar-se (Vincere), é incapaz de lidar com a morte materna de outros. É que o rato pariu uma montanha, e a gestação deu origem a um interminável pastelão de "puxar facilmente a lágrima".

Um demoroso velório que nos apresenta personagens de cartão, enraizados na dor do protagonista, sem qualquer tipo de alma para além desse estabelecido objetivo. Valeria Mastandrea é aqui somente um espelho desse pesar, cujos "olhos de carneiro mal morto" funcionam como o auge da sua interpretação melancolizada. O pior é o desperdício de uma atriz como Bérénice Bejo, que foi capaz de trazer um "monstro" em Childhood of a Leader, sendo reduzida a um mero adereço emocional, quase como uma auto-ajuda necessitada pelo protagonista. Porém, as sequências "flashback" entre o pequeno Massino (Nicolo 'Cabras), com apenas 9 anos, e a sua mãe (Barbara Ronchi, Miele) são de uma ternura aconchegante.

Pois bem, depois do pouco consensual Sangue del mio Sangue (apresentado este ano em Portugal na Festa do Cinema Italiano), Marco Bellochio concebeu um "crowd pleasure", um dramalhão corriqueiro que tenta descaradamente fugir da cinebiografia mas que só consegue interpretar lugares mais que comuns. Entre esses lugares contamos com a forte ligação de Itália com a imagem das suas "mães". Mamma Mia!

O melhor – os flashbacks da infância de Massino
O pior – o arrastado dramalhão que Marco Bellocchio executa, falta-lhe a frontalidade pelo qual era conhecido


Hugo Gomes

 



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