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«Rester vertical» (Na Vertical) por Hugo Gomes

Com fortes traços "Bressianos", Alain Guiraudie continua a sua jornada pela inaturalidade (a maneira como as personagens falam, atuam e reagem, bem como as situações que acontecem), da mesma forma que vincula com a natureza quase animalesca das imagens. Esse factor natural continua presente na sua obra, a água como elemento de fuga, o bosque como retiro espiritual e emocional e a "besta" como um crescente incógnito.

Para o realizador, este Rester Vertical é uma alusão ao conto de fadas, aos cavaleiros andantes e a suas intermináveis cruzadas, neste caso um jovem cineasta, Leo (Damian Bonnard), que procura lobos no Sul da França, deixando-se seduzir por uma pastora de espírito livre, Marie (India Hair). Nove meses depois, nasce uma criança, fruto dessa relação, mas em consequência de uma depressão pós-parto, Leo torna-se unicamente responsável pelo seu filho. Aprendendo a ser um pai "à força", o nosso protagonista terá que lidar com todas as adversidades que lhe surgem no caminho no intuito de proteger o seu "rebento", porém, existem fantasias internas que teimam em não desaparecer.

São fantasias, essas, que atribuem à fita o seu "quê" de onírico, aquela aceitação com o primitivismo natural e a fusão desta com a real narrativa tornam Rester Vertical num tremendo trabalho "exquisite", de rara beleza. Mas Guiraudie tem falhas, e muitas, neste retrato de estranheza e de visuais explícitos. O enredo é desfeito pela divagação nesse mesmo mundo e a inverosimilhança, aqui indiciada, contrai um humor "involuntário", demasiado negro, sabendo que não são esses os propósitos de um filme assumidamente poético.

Entre o enxugamento sexual e a ousadia do politicamente incorrecto, o filme adquire grandeza na sua sequência final, que comprova as compaixões entre bestas e a não divergência entre eles e nós. O nosso mundo é animalesco e Guiraudie sabe perfeitamente disso, só é pena que não consiga transmitir essa referida selvajaria sem o requerimento da provocação fácil. Infelizmente, não é outro Desconhecido do Lago.

O melhor - o final e as imagens de natureza
O pior - involuntariamente cómico e a procura do realizador à provocação fácil


Hugo Gomes



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