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«Café Society» por Hugo Gomes

Woody Allen não penetra em outros universos, apenas recria o que já está estabelecido. Em Café Society todos os elementos desse mesmo refúgio encontram-se presentes, preservados sob matéria de âmbar e emoldurados por um magnífico trabalho fotográfico do lendário Vittorio Storaro.

Nesta recontagem de As Balas sobre a Broadway, Allen deposita o seu fascínio numa Hollywood extinta, glamorosa dos seus anos dourados, enquanto cita a jornada algo "coming-to-age" de Bobby (Jesse Eisenberg que previsivelmente mimetiza os tiques do próprio autor), um jovem determinado a embarcar na sua emancipação, perseguindo um sonho hollywoodesco sem saber que nessa mesma caminhada o coração acabará por falar mais alto. O dialeto que tal coração proclama chama-se Veronica, uma Kristen Stewart vivaça e deslumbrante que conquista, não só o nosso protagonista, mas também o tio / patrão de Bobby (Steve Carell), provavelmente o homem mais influente da indústria cinematográfica.

Este triângulo amoroso evidente está longe de despoletar qualquer conflito emaranhado com cinematografias românticas. Aliás, Café Society é um filme sobre a maturação e, sobretudo, sobre as escolhas que nos levam a esse mesmo estado. Nesse sentido, Eisenberg corresponde ao processo. O desenvolvimento da sua personagem é visível e gradual, enquanto que a química pretendida com Kristen Stewart resulta numa aposta ganha. Porém, dentro desse mesmo amadurecimento, Allen, deixando sugestivas marcas de transgressão ao seu estilo já definido, afinando as garantias da sua autoralidade. Digamos que é o seu cinema imutável, e Café Society é a casa do seu evidente ego.

No segundo ato, a obra adquire um tom mais melancólico, com as personagens "desfeitas" a reviverem uma versão "woodylesca" de Casablanca. Kristen Stewart comporta-se como uma Ingrid Bergman, com as promessas de tempos e mudanças da mesma maneira que Dooley Wilson tocou "Times Goes By" no seu piano no tão celebrado filme de 1941. Mas tudo isso não passa de uma metáfora cinematográfica. A vida não é um filme e Allen, tecendo uma doce mentira, acaba por nos dizer isso mesmo, somente com um plano. Um plano que "encerra" uma velha jornada do realizador,  visto que prepara uma série, ou seja, uma nova etapa na sua carreira.

Uma nota final para a fotografia, que atribui a personalidade a este filme. Os interiores sob um laranja confortante, aquela atmosfera romântica que chega aquecer-nos o coração, a Nova Iorque de sonho mergulhada no Central Park; por outras palavras, é o visual a principal transmissão desta "sociedade de café" e o verdadeiro cúmplice desta farsa orquestrada por Woody Allen.

O melhor – a fotografia, Jesse Eisenberg e Kristen Stewart
O pior – nada a salientar


Hugo Gomes



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