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«Cartas de Amor são Ridículas» por Hugo Gomes

Lembro perfeitamente de assistir à trupe composta por Lauren Bacall, Betty Grable e Marilyn Monroe alugarem um apartamento em Manhattan, a fim de embarcarem numa demanda em busca de um marido milionário que pudesse providenciar uma vida isente de sacrifícios e possível a excessos. Esse filme, Como se Conquista um Milionário, de Jean Negulesco, estreava há 62 anos atrás, num mundo onde a mulher de sucesso ainda era vista como um dedicada esposa e dona-de-casa. E quem fala desse filme, refere também às enésimas produções que no entretanto estreava nessa década, como antes e depois dela.

Mas os anos passaram, neste momento uma réplica desse Como se Conquista um Milionário seria um filme perigoso, sexista e provido de incapazes personagens femininas. Nos tempos atuais, pedimos mulheres de caráter, detentoras de personalidade e sobretudo, determinação. No caso de sociedades ultra-conservadoras, todos nós solicitamos a crítica como a especiaria das eventuais narrativas. Nesse aspeto, quem não se lembra de Mustang? A obra onde cinco raparigas turcas tentam desafiar destinos traçados por matrimónios arranjados numa comunidade "governada" por homens.

Contudo, no caso de Cartas de Amor são Ridículas (título inspirado num poema de Álvaro de Campos, heterónimo do poeta português Fernando Pessoa) não existe sequer uma tentativa de sátira (visto tratar-se de uma comédia de costumes), mas sim uma cumplicidade descarada da realizadora e argumentista, Alvarina Souza e Silva, aos ideais misóginos que o filme não tem vergonha de expor. Tudo corre muito mal aqui, um cruzamento entre Orgulho e Preconceito e Cyrano que resulta na patética tentativa de branquear o matrimónio como a mais pura das etapas humanas, mesmo quando a violação é aqui sugerida, porém, ofuscada simplesmente pela ideia de um casamento como uma garantia de sobrevivência.

São doutrinas parolas, ultra-conservadoras do século passado e ainda a religião novamente a apresentar culpas no cartórios que tornam esta "filme" ofensivo e desprovido de qualquer denúncia social ou algo do género. Não, simplesmente é um "faz-de-conta" de que tudo aquilo apresentado é corretíssimo e que a mulher não possui qualquer tipo de voz em todo este cenário.

Agora, passando para o resto, porque um filme não deve ser apenas construído com base numa crença, Cartas de Amores são Ridículas serve ainda outras ofensas em termos técnicos, interpretativos e argumentativos. A primeira, evidencia a urgência de oferecer um tripé à realizadora nas suas fracassadas tentativas de steadycam, lecioná-la a uma rápida introdução quanto à edição e a necessidade do tempo nas passagens entre planos e, por fim, demonstrar como é indecente apresentar um produto sem qualquer brilho quer fotográfico ou de sonoplastia. No segundo ponto, os atores são automáticos sob as suas pele de "bonecos" ocos, pseudo-emocionais e motivados por uma argumento (terceiro ponto) sem noção de construção quanto às personagens, nem a inserção do conflito dramático.

Por último, devemos consolar Fernando Pessoa, que imensas reviravoltas deve ter efetuado na sua tumba perante à utilização indevida dos seus poemas. Tudo ao serviço de tamanha dose de amadorismo. Resumidamente, eis um filme ridículo e não as supostas cartas de amor. Enfim!

O melhor - o facto de a realizadora ter manejado uma câmara

O pior - é um filme tecnicamente amador e ideologicamente ultrapassado

Hugo Gomes



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