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«Olmo e a Gaivota» por João Miranda

A gravidez é algo assombroso. Um dos centros de complexidade, onde diferentes experiências e sistemas de crenças se confrontam. Muitos dos conceitos que lhe são aplicados são simplistas e acabam por não conseguir explicar a experiência de uma vida e um corpo ocupado e tornado público, transformados e transtornados. Se muitas vezes se discute a desigualdade de participação no acto (é no corpo e na vida da mulher que se sente, mais do que do homem) e as implicações económicas deste estado (carreiras abandonadas, desemprego, falta de suporte, licença de maternidade, etc.), parece difícil discutir temas como a perda de controlo sentida, o desconforto, a invasão na vida dos demais (todas as pessoas têm conselhos, tocam na barriga da grávida, etc.) e todas estas transformações sem se ser acusado de retirar da magia que este estado (beatífico, alguns garantem) devia trazer. “Olmo e a Gaivota” procura endereçar alguns desses temas, num documentário ficcionado.

Olivia é uma atriz que descobre que está grávida e, apesar dos seus planos de continuar a trabalhar, começa a encontrar obstáculos, primeiro de com quem trabalha, depois do próprio corpo, quando se descobre um hematoma que a obriga a ficar em casa. Usando imagens de arquivo e conversas, o esforço que Olivia tem de fazer para conter toda a sua energia torna-se patente e angustiante. Há um esforço por desconstruir a gravidez como a época mais feliz de uma mulher e de o reconstruir como algo mais complexo que isso, com momentos de felicidade e outros de tristeza, desconforto, dor, angústia, medo, muitas vezes seguindo-se em sucessão rápida. Todo esse esforço é refrescante e dá uma visão mais atualizada do que é normalmente remetido para “natural”.

Se há um defeito neste filme, é o não ir demasiado fundo nesta reconstrução. Sim, há um esforço em relação ao corpo e ao transtorno na vida, mas o papel que se vê o pai representar (há dúvidas levantadas no próprio filme se o que vemos é mesmo a relação como ela é) é um papel demasiado tradicional, não conseguindo também pô-lo em causa ou sequer abaná-lo. O mesmo para com as representações de género que se vão cristalizando com o progredir da gravidez, não havendo aqui modelos ou visões que possam ser mais interessantes do que as que enchem o mainstream. No final, é um bom esforço, mas acaba por ficar aquém do necessário.

 

O Melhor: A vontade.

O Pior: Não ir fundo o suficiente.

João Miranda



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