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«Treblinka» por João Miranda

Fantasmas assombram comboios. Antes, as veias de ferro de regimes totalitários, carregando milhões para complexos industriais de morte, agora, assombrados pelos fantasmas destes, nas imagens e nas palavras que vemos e ouvimos. As fábricas de morte adaptam-se e crescem na sua barbaridade, matar não é suficiente, qualquer rasto tem de ser apagado. O fumo e os corpos enchem os céus destas fábricas de produzir morte e miséria. E os comboios continuam a percorrer os mesmo caminhos.

Nas palavras de sobreviventes, se é que alguma vez se sobrevive destes locais, os fantasmas vão ditando um aviso. Um aviso de outros fantasmas, menos inocentes e mais cruéis, que assombram de novo os mesmo locais. De mensagens e promessas esquecidas, feitas sobre os túmulos dos primeiros, e ignoradas com o tempo, na arrogância de que o passado ficou para trás e que não nos pode fazer mal. E os fantasmas continuam a assombrar os comboios, falando dos crimes e dos assassinos que vivem novamente.

A arqueologia e a História não nos podem ajudar agora: saber só não serve. Sentados à beira-mar ignorando a maré que mudou e as vozes dos fantasmas, só a ação agora nos pode salvar, mas entretidos com tudo o que nos dão e com as minúcias do quotidiano ignoramos os fantasmas e os seus comboios. Ignoramos os complexos industriais que, de forma quase ritual, se vão reconstituindo em fragmentos por todo o lado. Ignoramos o fumo que de novo enche o céu. Tréfaut filmou os comboios e os seus fantasmas para nos avisar. As palavras dos sobreviventes enchem o espaço com o horror que se levanta, será que conseguimos ouvir?

 

O melhor: O texto de Chil Rajchman.

O pior: Há imagens cuja artificialidade só serve para distrair.

João Miranda



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