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«Bienvenue à Madagascar» por João Miranda

O colonialismo nunca acabou. Não só se sentem ainda as suas marcas, como todas as formas mais ou menos veladas que foi assumindo depois do seu suposto fim têm criado fendas que fornecem a discursos extremistas uma credibilidade que não têm e uma atração que não merecem. Se os media noticiosos se enchem de páginas sobre o Daesh e o que têm feito no Médio Oriente, África e em particular o Magreb têm ficado esquecidos, mencionados meramente em alguns documentários como algo do passado. Bienvenue à Madagascar tenta fazer a ligação do colonialismo a estes movimentos extremistas que surgem na zona. Para isso, sobrepõe a filmes de época e filmados agora as vozes de quem participou e participa ainda da História recente dessas zonas.

A estrutura escolhida para este conceito ambicioso é, ao mesmo tempo, original e exigente: as imagens estão na maior parte do tempo desassociadas das vozes (por vezes o som que ouvimos é diagético, noutras as imagens ilustram o que é dito, noutras ainda não parece haver ligação óbvia) e essas sobrepõem-se umas às outras. Se pode ser exigente seguir duas vozes a falar ao mesmo tempo, a solução inventada pela realizadora Françoise Prenant, com os momentos chave a desencontrarem-se uns dos outros (jogando com o volume e parando momentaneamente o discurso para o garantir), permite situações em que o confronto do que é dito pelas vozes rebenta completamente qualquer discurso pós-colonial saudoso ou narrativas ocidentais sobre a zona. As legendas, essas, ficam aquém do que é dito, não sendo de todo possível traduzir tudo e limitando-se apenas aos momentos mais importantes.

Num momento em que o mundo se radicaliza e a dicotomia ocidente/resto do mundo é utilizada tanto para justificar o privilégio de uns ou a reação violenta de outros, Bienvenue à Madagascar consegue, de forma magistral e sem julgamentos, revelar a complexidade do que se passa e as suas origens no passado. Enquanto não conseguirmos aceitar e lidar com o passado, estaremos sempre a dar fogo para que estes movimentos violentos ganhem crédito e se espalhem por zonas em que a desigualdade e a pobreza é gritante.

O Melhor: A ambição; a estrutura; o não fugir à complexidade.
O Pior: Pode ser avassalador tentar seguir duas vozes em francês, pior ainda quando uma recorre ao arábico e se tem de recorrer às legendas.


João Miranda



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