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«Boi Neon» por João Miranda

  

Três anos depois de ter apresentado Doméstica na edição de 2013 do Indielisboa, Gabriel Mascaro traz este ano "Boi Neon". Muito longe do formato desse projeto anterior, não se afasta, no entanto, das preocupações sócio-políticas do realizador. Focando-se desta vez no quotidiano da mão-de-obra por detrás dos rodeos no interior do Brasil, Boi Neon conta as histórias de Iremar e dos seus colegas, nómadas forçados que tomam conta dos animais e os transportam de terra em terra.

Jogando constantemente com as nossas expectativas, Mascaro consegue sempre evitar todos os clichés, construindo uma realidade credível e não sacrificando a sua consistência para provar algum ponto ou tentar parecer mais inteligente. Durante o filme vai desenhando relações entre as várias personagens e revelando elementos sobre estas que nos forçam a rever o que pensamos que vai acontecer. A pobreza aqui não é mascarada ou aligeirada numa fantasia de felicidade natural ou outro disparate semelhante, mas as pessoas aqui retratadas não são também reduzidas a caricaturas de estupidez ou vitimização, vivendo, desejando e agindo dentro das limitações impostas por ela.

A imagem do filme é, no entanto, um dos seus pontos altos. Se, por vezes, temos enquadramentos relativamente limitados ao que se quer mostrar, em outras cenas a tela rebenta em delírios surreais, como alguém que penteia um cavalo de forma muito erótica ou o titular boi a ser pintado para um rodeo noturno. O erotismo é, aliás, uma constante, irrompendo de formas inesperadas e nem sempre convencionais, misturando-se com humor ou lirismo e tornando este um filme que algumas pessoas terão dificuldade em compreender.

Gabriel Mascaro é um dos realizadores mais interessantes do Brasil, pena que nem todos os seus filmes cheguem cá, mesmo que em festivais.

O Melhor: O jogar com as expetativas sem perder credibilidade; a imagem; o erotismo.
O Pior: Não tem um fim como uma narrativa normal, parece querer apenas documentar a vida destas pessoas (ainda que não seja um documentário).


João Miranda



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