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«Maraviglioso Boccaccio» (Maravilhoso Boccaccio) por Duarte Mata

O Decameron de Boccaccio já havia servido de inspiração a várias adaptações cinematográficas, sendo talvez a mais famosa a homónima de Pasolini. A nova versão dos irmãos Taviani (cada um com mais de 80 anos), Maravilhoso Boccaccio, tem um interesse remoto, histórico e ecuménico, isto é, trata-se de um filme sobre essa velha arte que é a de contar histórias. Fazem-no selecionando cinco dos cem contos contidos na intriga original, que tem como fio condutor um conjunto de jovens que, para escapar (e sobreviver) à Peste Negra em Florença no século XIV, se isolam num mosteiro, tendo como única forma de consolo o de narrar pequenas ficções.

A representação dos atores-narradores peca por um excesso de teatralidade (defeito também presente em algumas das obras anteriores dos irmãos) e que quase dão o filme por perdido. Mas é quando aquelas personagens abrem a infinidade de portas narrativas que o duo se mostra mais capaz de suster o interesse do espetador conseguindo, de forma igualmente hábil, oscilar entre a comédia e o melodrama, a fantasia e a realidade, abordando temas tão diferentes como a hipocrisia na religião ou o ciúme disfarçado de paternalismo. E, claro, o amor humanista associado ao sacrifício. Evidentemente que muito se deve ao material de partida, mas cabe aos cineastas conferir autenticidade e encanto (os cenários e a fotografia são de grande cuidado) que nas mãos de outro poderia resultar num filme pouco coeso e incoerente.

Aonde pretendem chegar os realizadores? Nada que já não soubéssemos de antemão: mais do que entreter, as histórias são veículos de consolo e esperança universais, ocultando um reflexo das personalidades que pode habitar o indivíduo, independentemente do simplicismo associado. Mas, por muito excruciado que pareça esse tema, nada se perde em relembrá-lo.


Duarte Mata

 



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