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«I, Olga Hepnarova» por Fernando Vasquez

A famosa secção Panorama abriu com um dos mais arriscados filmes presentes este ano em Berlim, I, Olga Hepnarova dos checos Petr Kazda e Tomas Weinreb, que muita discussão gerou nos corredores do certame graças a uma temática que vai muito além do controverso.

O filme retrata a história verídica de Olga Hepnarova, "vitima" da ultima condenação à morte pelo estado checo, após assassinar 8 pessoas numa praça publica na antiga Checoslováquia.

Segundo Kazda e Weinreb, Olga nunca foi uma rapariga igual às outras. Desesperadamente à procura de uma alternativa à rigidez da sua educação familiar e das convenções de um estado comunista, a jovem revelou sempre um espírito rebelde e singular. Envergando uma postura de Maria rapaz, ao longo dos seus verdes anos foi sempre incapaz de estabelecer qualquer tipo de relação próxima com os seus pares. As únicas exceções limitaram-se a esporádicas e fugazes relações amorosas com um grupo restrito de mulheres, sempre com o mesmo destino catastrófico. O isolamento apenas contribuiu para a deterioração do seu estado psicológico, progressivamente sempre mais distante das normas e estabelecendo um vácuo preenchido por uma aversão à humanidade em geral.

O resultado era inevitável e a 10 de julho de 1973, atrás do volante de um camião alugado, atropela propositadamente uma serie de pedestres que esperavam pelo autocarro numa praça movimentada.

Não é fácil descortinar os objetivos dos cineastas, já que o resultado final é um filme deveras desequilibrado que facilmente esbarra no sensacionalismo. No entanto, apesar de I, Olga Hepnarova ser um filme difícil de digerir, esta é uma obra de relevo, que tal como todos os grande filmes, inevitavelmente se destaque pela sua capacidade de gerar debate ao mesmo tempo que apresenta um retrato interessante da republica checa dos anos 70.

Durante grande parte do tempo assistimos a um desenrolar extremamente lento do desenvolvimento pessoal de Olga (Michalina Olszanska). Sem duvida que praticamente todos os episódios servem, de certa maneira, como explicação para o ato atroz que mais tardar ira condenar a protagonista, mas é impossível não sentir alguma repulsa pela repetição incessante. O desequilibro do filme nasce na forma como Kazda e Weinreb evitam os grandes temas, optando por enumerar encontros e desencontros, em vez de se debaterem diretamente com o fenómeno que de facto torna o caso de Hepnarova único: a ultima aplicação da pena de morte na Checoslováquia comunista.

Na realidade, o processo é no mínimo estranho. É uma verdade inquestionável que quando finalmente o filme entra na fase final, onde a personagem central se vê confrontada com um final pré-destinado, parte da audiência já foi suficientemente fustigada para conseguir estabelecer alguma empatia com o crime e os motivos do mesmo. No entanto, é impossível não referir que até certo ponto o método funciona, no sentido em que o auge da ação surge quando menos se espera. A atitude da audiência é por isso manipulada inteligentemente até esse ponto, como se de dois filmes contratantes se tratasse.

Apesar de nunca esconderem a um certo sentido solidário com a protagonista, os autores limitam-se a apresentar uma personagem de sentido único, tal como Olga Hepnarova sempre foi na realidade. É virtualmente impossível acompanhar e aceitar a mania da perseguição desenvolvida pela protagonista, já que se de fato nunca foi particularmente acarinhada, também nunca foi suficientemente castiga de forma a justificar a sua conclusão. Ainda assim é difícil conter as nossas emoções no momento em que a confiança de Olga é finalmente destroçada, ao ser encaminhada para a forca.

Neste misto e jogo arriscado, surgem uma serie de momentos interessantes, em particular relacionados com o processo cinematográfico. O preto e branco do diretor de fotografia Adam Sikora é inquestionavelmente sedutor, em particular nas cenas de sexo, os raros momentos em que Olga revela um pouco da sua restante humanidade. Igualmente digno de destaque é o plano final, onde o corredor da pena de morte é explorado de forma brilhante e fria.

I, Olga Hepnarova nunca chega a ser o filme que ameaça ser, e sem duvida que uma reavaliação do processo de edição poderia facilmente cortar uma fatia desnecessária do filme, mas não será por isso que se trata de uma obra menos obrigatória, já que a temática e a personagem invulgar são razões abastadas para tornar esta experiência em algo mais que relevante.


Fernando Vasquez



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