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«Mãe Só Há Uma» por Fernando Vasquez

Com uma presença mais tímida em comparação a anos anteriores, o cinema brasileiro não deixou de assumir um papel de destaque significativo neste ultimo festival de Berlim. Entre outras obras, foi o mais recente trabalho de Anna Muylaert, Mãe Só Há Uma, que se destacou da multidão. Longe de ser uma desconhecida do publico da secção Panorama, onde ganhou dois prémios em 2015 com Que Horas Ela Volta?, a cineasta brasileira regressou com um drama invulgar sobre o rapto de crianças recém-nascidas, que lhe valeu o Manner Magazin Readers Jury Award.

O filma conta-nos a história de Pierre (Naomi Nero), um adolescente diferente do habitual. Um certo fascínio pela lingerie e maquilhagem feminina temperam o normal período de descoberta e experimentação sexual, revelando uma certa tendência homossexual que esconde da sua mãe, Aracy (Dani Nefussi), e da pequena irmã, Jacqueline (Lais Dias). Introvertido e discreto, vai tentando passar desapercebido, até que a sua vida dá uma reviravolta inesperada. Uma queixa policial entreposta por uma família cujo filho fora raptado ainda na maternidade, obriga-o a comparecer num hospital de forma a completar uma serie de testes genéticos que revelam uma realidade cruel: nem ele, nem a sua irmã são filhos da mãe que os criou.

O trauma da descoberta de que toda a sua vida até ao momento fora uma mentira, amplia-se com a imediata mudança para o seio da sua família biológica, composta pela mãe Gloria (também representada pela atriz Dani Nefussi), o pai Mattheus (Mattheus Nachtergaele) e o novo irmão Joca (Daniel Botelho), uma família muito diferente do lar onde cresceu. Por mais que Pierre se tente adaptar não se consegue despir das mutações naturais de uma adolescência difícil, dilatadas inevitavelmente por uma situação extrema.

A temática é deveras interessante e em diversos momentos Muylaert ameaça mesmo tornar Mãe Só Há Uma num olhar critico sobre o drama de uma família ilegítima confrontada com uma realidade inevitável. No entanto, o foco da cineasta concentrasse exclusivamente no desenvolvimento da personagem de Pierre. O impacto de tal escolha é agridoce, já que sem duvida consegue evitar um enredo exageradamente melodramático em troca de uma experiência impiedosamente pessoal, sempre na primeira pessoa, mas ao mesmo tempo torna-se demasiadamente dependente da personagem de Pierre, que em diversos momentos cai na mera caricatura de um jovem rebelde e sexualmente promiscuo.

O auge dramático do filme surge ainda na primeira fase, quando Aracy e Pierre visitam o hospital sob o olhar apertado das autoridades. O desespero de Aracy está latente por mais que tente disfarçar e desdobrar-se em desculpas que lhe permitam evitar os testes. As suas capacidades como mãe nunca são postas em causa, pelo contrário, em nenhum momento restam duvidas em relação à proximidade que mantém com os filhos que criou sozinha desde a morte do suposto pai. Ao sabermos de antemão o desfecho dos resultados é impossível não sentir uma forte afinidade com Aracy, despertando assim uma curiosidade enorme sobre as razões que a levaram a cometer tal crime. Mas Muylaert não nos faz essa vontade, retirando Aracy de cena para nunca mais a voltar a inserir. Todas as perguntas ficam assim por responder.

Existe uma certa lógica nesta escolha, já que a personagem que seguimos do inicio ao fim fica também sem a possibilidade satisfazer a sua necessidade de saber toda a verdade. Tal como Pierre, a audiência é obrigada a virar costas ao passado e encarar uma nova realidade, um novo enredo.

O processo repete-se tal e qual no momento em que Pierre se despede da irmã Jacqueline, com o mesmo objetivo e resultado, impedindo-nos assim também de descobrir todo o drama que envolverá a nova familia de Jacqueline, após uma introdução exemplar que muito interesse cativou.

Persiste no entanto um último e interessante conflito, esse sim explorado convenientemente. A família biológica, que após anos de martírio à espera do filho desaparecido, revela-se incapaz de manter o equilíbrio e calma necessária para receber Pierre convenientemente. À medida que se apercebem das tendências sexuais do filho por quem tanto ansiavam, a realidade revela-se de novo muito distante do esperado. O conflito e a desilusão são inevitáveis.

É nesta fase que se destaca a performance de Dani Nefussi, que já antes, no papel de Aracy, imprimira uma impressionante sensação de sofrimento e desespero silencioso. Igualmente digno de salientar é a presença de Mattheus Nachtergaele, que como já vem a ser habitual, proporciona uma presença de grande relevo, no papel de um pai emocionalmente no limite, incapaz de ignorar os seus preconceitos apesar da natureza invulgar da situação em que se encontra.

Em Mãe só há uma a ação revela-se sempre mais interessante do que a personagem central. Este fenómeno torna a insistência da autora em privilegiar todas as atenções em Pierre, e nunca na ação ou personagens que o rodeiam, num beco sem saída. O filme, que tinha tudo para ser multifacetado, na realidade limita-se a uma descoberta demasiadamente uni-dimensional. O jogo de Muylaert é arriscado e em várias ocasiões é até eficaz, mas ao tentar esconder tanto acaba por revelar muito pouco.


Fernando Vasquez



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