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«A Lullaby to The Sorrowful Mystery» por Paulo Portugal

O cinema do realizador filipino Lav Diaz poderá sofrer de um trauma temporal que o precede. Sejamos claros, um filme de oito horas não é para todos. Mas Lav Diaz sabe-o bem. E confirma que a duração de Lullaby to the Sorrowful Mystery não constitui para ele um problema e tão pouco se importa com a dificuldade que terá em distribuir um semelhante projeto. Nós fizemos questão de o ver na sua integralidade, ainda que Lav Diaz nos tivesse assegurado que para ele na haveria qualquer problema se tivéssemos perdido uma hora ou mais. De certa forma, isso também faz parte do seu ato de cinema.

Lullaby (fiquemo-nos pelo título curto) cumpre uma espécie de marco inevitável que Diaz quer deixar para a posteridade, analisando com esta dimensão as consequências da secular e sangrenta permanência espanhola nas ilhas Filipinas, e a consequentemente revolução operada por Andrés Bonifácio y de Castro, considerado o pai da revolução filipina, durante o século XIX. Uma gesta que o realizador de 58 anos capta no seu habitual formato em preto e branco, a sua forma de encarar o cinema, e segue diversas personagens chave neste longo trajeto.

Não é difícil de imaginar que este filme esteja irremediavelmente tocado pela cinefilia. Até porque o dia do início da revolução aconteceu pouco depois da primeira sessão oficial de cinema, com os Irmãos Lumiere, em 28 de dezembro de 1895, em Paris. De resto um momento assinalado no filme. No entanto, a sua paixão pelo cinema perpassa também pelo rigor dos enquadramentos onde a câmara é quase sempre uma testemunha que não se debruça sobre as personagens, e onde os planos são necessariamente longos dentro de um espírito de cinema em construção e necessário improviso.

Lullaby não está na dimensão das obras-primas, funciona mais como um objeto de museu. Por isso mesmo gostamos que exista e que o tenhamos visto.

Talvez o filme de Lav Diaz e o de Ivo Ferreira sejam aqueles que, na secção competitiva, dialogam a vários níveis, desde logo com uma memória colonial que surge a preto e branco e com a qual se lida de uma forma poética. Isto apesar de serem entre si incomparáveis.

O melhor: a inabalável coerência formal e o gesto de cinema que se funde com o tempo
O pior: a ideia de que o filme possa sofrer com a duração


Paulo Portugal

 



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