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«Cartas da Guerra» por Paulo Portugal

O dia de S. Valentim não poderia ter um melhor eco com as Cartas da Guerra, de Ivo Ferreira, um longo lamento de amor e ausência, terrivelmente romântico, que se afirma de imediato como um muito sério candidato ao Urso de Ouro.

Este documento magnífico, paredes meias entre o documental e a ficção, evocando um período da guerra colonial, ganha um valor superior ao descrever-se como uma interminável torrente de amor feérico que contrasta com o quotidiano do aquartelamento no mato do alferes médico António. Esse material haveria de ser reunido no volume D'este viver aqui neste papel descripto, e que foi autorizada a sua adaptação para o filme de Ivo Ferreira.

No entanto, não são apenas as Cartas o manancial deste filme, já que a dramatização que acompanha estes 105 minutos é demasiado intensa, reproduzindo um realismo que ilustra bem o desespero de uma guerra que há muito deixara de ser compreensível. Um filme como Cartas de Guerra é, por assim dizer, o nosso Platoon ou recordando um desespero próximo Apocalypse Now, mas sem os efeitos especiais dos combates e com o cenário da savana de Angola. E aqui não nos lembramos sequer de As Cartas de Iwo Jima, porque aqui o combate ocorre apenas em ações esporádicas dos 'turras', se bem que essa necessidade da abstração para a memória dos familiares lhe seja comum.

A figura central é o doutor António, o narrador e autor das cartas, a personagem inspirada na vivência de António Lobo Antunes, interpretada com necessária entrega por Miguel Nunes. Ele que escreve as cartas mais doces à sua (primeira) mulher (Maria José, no filme interpretada por Margarida Vila-Nova) grávida da sua primeira filha, durante a sua comissão de serviço em Chiume, entre 1971-72, em Angola. São ainda descritas as personagens do Capitão Melo Antunes (João Pedro Vaz), um major a atingir os limites que acaba por pedir ao doutor António 'uma guia médica' para casa (Ricardo Pereira), entre outras personagens inspiradas em figuras reais.

Era evidente que nessa altura já se percebera que esta guerra era absurda e injusta, garantiu Ivo Ferreira, ao iniciar a conferência de imprensa que se seguiu à projeção de imprensa. O que vemos é aquela longa espera, um quotidiano sempre à espera da volta do correio com as cartas com que se alimentava a saudade (e a sanidade). As enésimas pausas para os cigarros ou para a cerveja Cuca, ou para ambas, o ouvido colado ao rádio a ouvir Fernando Tordo ou de outros artistas da época ou o relato do Benfica e os feitos do Eusébio. Uma janela de tempo que terá ficado marcada para todos aqueles que viveram um pouco desse inferno.

Talvez por isso sejam arrebatadas até à exaustão as palavras que escorrem como mel e que inevitavelmente nos comovem. Cartas de amor, nada ridículas, contrariando o heterónimo Álvaro de Campos, mas capazes de dar uma consistente espessura narrativa e dramática a este bravo filme captado pela fotografia assombrosa de João Ribeiro e dirigido por um realizador que nasceu depois da Revolução de Abril, mas que viajou muito pela Ásia e África, para se fixar em Macau, onde atualmente vive.

O melhor: a letra arrebatada das cartas e a fotografia de João Ribeiro
O pior: houve quem sentisse um peso demasiado do off das 'cartas'...


Paulo Portugal

(crítica originalmente publicada em fevereiro de 2016)



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