Menu
RSS


«Creed» (Creed: O legado de Rocky) por Jorge Pereira

Da mesma maneira que o filho de Apollo Creed, Adonis Johnson, tem de lidar com o legado do pai neste sétimo filme da franquia Rocky, Ryan Coogler, o realizador, sente em toda a linha o peso de uma saga iniciada há cerca de 40 anos e que hoje em dia mais parece uma máquina industrial obrigada a vender a mesma história vezes sem conta a diferentes gerações.

É certo que Rocky sempre foi um instrumento do modo de vida americano, e nem é preciso ir ao óbvio filme propaganda em plena Guerra Fria, Rock IV, para compreender isso – já em 1975, data do primeiro filme da franquia, a Academia de Hollywood se rendia aos seus encantos, preferindo-o em detrimento de outras obras visionárias, como Taxi Driver ou Os Homens do Presidente, mas que apresentavam uma imagem mais negativa do império. Rocky Balboa e este Creed esboçam, por assim dizer, uma outra parte do sonho americano: como sobreviver depois de ser uma estrela, como lidar com a velhice e como assumir uma vida mais mundana longe dos holofotes, passando o legado.

A reciclagem dos ideais do primeiro filme nota-se em todas as linhas do argumento e das personagens deste Creed, no qual o cineasta indie (conhecido por Fruitvale Station) volta a chamar Michael B. Jordan para assumir a liderança. Mas por mais que Coogler se esforce por fugir ao tom emocional presente na maioria dos dramas do mundo dos ringues, e até aja insistentemente de forma subtil e contida na apresentação dos diferentes elementos, nunca consegue escapar a uma obrigatoriedade e ao cunho pessoal da franquia: a de ser um "feel good movie" sobre superação pessoal.

Assim, e como "crowd pleaser" previsível e esquemático que é, Creed encaixa-se confortavelmente na fórmula Rocky, já que assistimos a um "underdog" a superar as probabilidades à medida que vai conquistando a sua identidade e afirmação pessoal. Não surpreende, por isso, a série de lugares comuns com que somos presenteados, a começar por aquele que é o alicerce moral da narrativa, a figura do sábio mentor sempre disposto a ajudar o nosso pugilista a lidar com a inexperiência (no desporto e na vida), com Rocky/Stallone a ocupar o papel outrora desempenhado pelo velho Mickey. As diversas sequências de treino sempre nos limites, o romance adocicado, o vilão rufia como oponente; e, com certeza, um combate final que tenta arrastar emocionalmente o espectador para dentro do ringue, nunca vão muito além do seu propósito, esgotando-se antes numa lógica de fórmula já batida.

No meio de tanto déjà vu, onde Filadéfia é novamente chamada para agir como uma personagem, com direito a uma sequência com motards a tenta mostrar que Adonis é também ele um lutador "das ruas", acabam por ser Michael B. Jordan e Sylvester Stallone, com uma boa química cinematográfica, os únicos elementos que merecem destaque, até por causa da forma complementar com que exploram os seus dramas existenciais e demónios internos. A passagem do tempo na personagem de Stallone é acentuada por uma representação com algum humor, que contribui para o retrato de uma velhice doce, senão mesmo terna. Já o jovem Creed parece ir no sentido inverso das estrelas atuais do desporto, renunciando à ostentação e procurando um outro caminho mais humano e moral. E embora este filme até consiga sobreviver isoladamente, é também verdade que é certamente um dos menos espectaculares e mais mecanizados ensaios da franquia. 

Quando chega ao último terço, não interessa quanta genica o duro combate final transmite, mesmo recorrendo a planos sequência entusiasmantes. Nós sabemos sempre como tudo vai terminar: com o reconhecimento por parte de um publico inicialmente hostil. Por isso, podemos mesmo dizer que este é um filme que se encosta demasiadamente às cordas, vivendo muito à custa da nostalgia que prende o espectador a todo este universo.

O Melhor: O duo de atores
O Pior: Extremamente previsível no seu misto de sequela, remake, reboot e spin-off


Jorge Pereira

 



Deixe um comentário

voltar ao topo

Atenção! Este website usa Cookies.

Ao navegar no website estará a consentir a sua utilização. Saber mais

Entendi

Os Cookies

Utilizamos cookies para armazenar informação, tais como as suas preferências pessoais quando visitam o nosso website. Os cookies são pequenos ficheiros de texto que um site, quando visitado, coloca no computador do utilizador ou no seu dispositivo móvel, através do navegador de internet (browser). 

Você tem o poder de desligar os seus cookies, nas configurações do seu browser, ou efetuando alterações nas ferramentas de programas AntiVirus. No entanto, isso poderá alterar a forma como interage com o nosso website, ou outros websites.

 Tipo de cookies que poderás encontrar no c7nema?

Cookies estritamente necessários : Permitem que navegue no website e utilize as suas aplicações, bem como aceder a eventuais áreas seguras do website. Sem estes cookies, alguns serviços que pretende podem não ser prestados.

Cookies analíticos (exemplo: contagem de visitantes e que páginas preferem): São utilizados anonimamente para efeitos de criação e análise de estatísticas, no sentido de melhorar o funcionamento do website.

Cookies funcionais

Guardam as preferências do utilizador relativamente à utilização do site, de forma que não seja necessário voltar a configurar o website cada vez que o visita.

Cookies de terceiros

Medem o sucesso de aplicações e a eficácia da publicidade de terceiros. Podem também ser utilizados no sentido de personalizar widgets com dados do utilizador.

Cookies de publicidade

Direcionam a publicidade em função dos interesses de cada utilizador. Limitam a quantidade de vezes que vê o anúncio, ajudando a medir a eficácia da publicidade e o sucesso da organização do website.

Para mais detalhes visite http://www.allaboutcookies.org/

Secções

Quem Somos

Segue-nos

Contactos