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«Loreak» por Paulo Portugal

Depois da sensação crítica em San Sebastian, mesmo tendo ficando arredado de qualquer prémio, Loreak (flor em basco) é um daqueles casos raros de beleza que muito bem se poderia comparar a um buquê de flores cinematográfico. Outra curiosidade é que foi a primeira vez que um filme em Euskera – a língua oficial basca – foi programado para a Seleção Oficial de San Sebastian, o maior festival de cinema espanhol que celebrou o ano passado a seu 62ª edição e que se realiza no final do Verão no país Basco.

Seja como for, depressa a estranheza é gradualmente substituída por uma irresistível atração à medida que penetramos neste emaranhado sentimentos que várias vezes nos confundem, para sempre nos deslumbrarem. A dupla Garaño e Goenaga – autora de En 80 Dias, de 2010, que inclusive passou pelo Cine Ceará – mostra-se hábil na forma como gere os tempos narrativos e, acima de tudo, os timings românticos. Isto porque neste caso o romance e a afetividade andam sempre desencontrados, superando mesmo a morte. Um complexo jogo de emoções que chega mesmo a colocar-nos diante do romance para além da vida vivido em Vertigo de Hitchcock.

E se um desconhecido alguém de oferecer flores?, tal como no conhecido spot publicitário. Tudo começa quando Ane (Nagore Aramburu) começa a receber semanalmente vistosos buquês de flores sem qualquer identificação do mandante. Algo que começa a perturbar o marido. Da mesma forma, Lourdes (Itziar Ituño, presente em Fortaleza) e Tere (Itzair Aizpuru) deparam-se com flores deixadas no local onde morrera o marido da primeira e filho da segunda. Naturalmente, pelo meio haverá Beñat (Josean Bengoetxea), colega de trabalho de Ane. O mais curioso é como as flores passam a ser a forma de comunicação para todos eles, num exercício narrativo muito bem urdido e desenhado com régua e esquadro numa meticulosa découpage. Dizer mais seria como o ato fatal de regar demasiado uma flor rara. Tal como no filme se explica que a flor durará mais se for podada a raiz de modo a manter a sua cicatriz aberta. Neste caso, a melhor tradução que esta dupla proporcionou à equipa reduzida de excelentes atores. E, claro, os sucessivos buquês que aqui dizem bem mais que muitos sentimentos amorosos.

O facto de Loreak ser realizado por uma dupla masculina diz mais ainda da extrema delicadeza dos sentimentos exibidos. Uma pequena pérola.


Paulo Portugal



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