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«Mountains May Depart» (Se as Montanhas se Afastam) por Hugo Gomes

Existe mais para onde olhar nesta nova obra de Jia Zhang-Ke do que o drama sobre a criação e preservação de relações afetivas no rumo de um conflituoso triângulo amoroso, como uma subliminar distopia às consequências da globalização e a invasão do Ocidente na cultura oriental.

Nesse sentido, os primeiros minutos deste Mountains May Depart arrancam com a crítica estabelecida por Zhang-Ke em toda a sua narrativa. Enquanto vemos os nossos protagonistas jubilantes dançando ao ritmo de Go West, dos Pet Shop Boys, reparamos numa sequência de um dragão chinês pavoneando-se nas ruas da amargura. É a premonição da morte da cultura chinesa, algo que parece contrariar tudo aquilo que se tem dito por este mundo fora: "Os chineses vão invadir o Mundo". A verdade é que Jia Zhang-Ke vai mais fundo nessas palavras e explora a fragilidades de uma identidade cultural cada vez mais decadente.

Relembramos as palavras do argumentista e produtor James Schamus, durante uma convenção de argumentistas em setembro de 2014, onde declarou que Hollywood encontrava-se de momento apenas interessado em fazer filmes direcionados para adolescentes chineses [devido à importância do país nas receitas globais]. Este depoimento demonstrou sobretudo preocupação nos modelos de produção de alguns dos maiores estúdios norte-americanos e dos riscos que isso implicava. Se por um lado os filmes norte-americanos tornam-se acessíveis às audiências chinesas, por outro, nenhum destes produtos instala-se com respeito cultural. Ao invés, são apontados como injecções de arquétipos dignamente ocidentais nesse mesmo público.

Obviamente a culpa não é inteiramente do cinema, mas sim dessa globalização, que por sua vez é um beneficio para a própria China, propicia à proliferação dos seus negócios pelo resto do Mundo. Talvez um dia iremos necessitar de escolas especializadas como aquelas que vemos no terceiro ato desta fita, onde num futuro próximo, os chineses residentes da Austrália frequentarão estabelecimentos de ensino para serem relembrados que realmente são chineses.

Jia Zhang-Ke constrói esta história sobre um triângulo amoroso dilacerado em três atos temporais, repartidos em décadas diferentes, acompanhando os seus protagonistas e as suas tramas num mundo unificado por antigos sonhos. Sonhos esses que exploram a ausência das fronteiras culturais, quase invocando o conceito de superestados Orwellianos nessas mesmas condições.

Mas acima de tudo, Mountains May Depart revela-nos a crise identitária como um dos maiores medos perante esses mesmos sonhos e o quão urgente é recuperar essa mesma identidade, da mesma foram que devemos preservar as nossas relações familiares e afetuosas.

Assim, Mountains May Depart é um exercício desafiante que já se apresenta como um dos melhores filmes do cineasta e um filme obrigatório para todos os seus conterrâneos.

O melhor – críticas subliminares de Jia Zhang-Ke disfarçadas com as intrigas emocionais
O pior – a realidade que aborda, até mesmo metaforicamente


Hugo Gomes



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