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«Youth» (A Juventude) por Paulo Portugal

Depois do estado de graça alcançado com a A Grande Beleza, o italiano Paolo Sorrentino regressou a Cannes para se espalhar ao comprido com a tentativa gorada de procurar o sentido da vida e da velhice com uma tirada pretensiosa. No fundo, o recurso do desfile de personagens mais ou menos garridas, mais ou menos desgarradas, alinhavadas a uma narrativa frouxa que nunca chega a convencer, num confronto entre a veterania de corpos vencidos e uma juventude que celebra o erotismo. Como a 'miss universo' do poster do filme que, por certo, funcionará como catalisador para abrir o apetite.

Desta feita, o italiano instala-nos num spa de luxo suíço onde acompanhamos as ruminações de Fred (Michael Caine), um compositor reformado e Nick (Harvey Keitel), um realizador à procura de um final para o seu filme. Há até Jane Fonda numa cameo garrida e excessiva, como outras que tem feito, embora aqui sem o nível semelhante.

Em conversas de espreguiçadeira ou de banhos turcos encontramos ainda a filha do compositor (Rachel Weisz) e do jovem ator americano (Paul Dano), para além de um séquito de personagens aborrecidas, algumas delas insuportáveis, como o filho de Nick, que apenas aparece para apresentar a sua nova namorada, uma espécie de atriz porno de segunda. E quando é questionado pela escolha, a resposta deixa-nos perplexos. É porque é boa na cama.

O estilo é garrido, vincado, operático mesmo, onde não falta sequer uma referenciazinha a Cannes... No final, aplaudiram aqueles que responderam ao convite sugerido para o aplauso, num falso clímax apoteótico, e apuparam outros, onde nos incluímos, enfastiados com o vazio demasiado previsível da obra e uma ostentação contemplativa de um cinema repleto de clichés visuais.

Sim, Sorrentino sabe filmar, mas também já se percebeu que a narrativa nunca foi o seu forte, e a vontade feérica de mostrar não se contenta com pouco. Entre as muitas cenas disparatadas está, por exemplo, a tentativa do maestro orquestrar uma peça musical com o mugir das vacas e o badalo dos guizos, as variações da equipa de argumentistas a sugerir diferentes diálogos para finalizar o filme de Nick ou ainda a patética cena romântica de Rachel Weisz, pendurada em cima de um penhasco e atada a um alpinista romântico.

Se A Grande Beleza funcionava como uma parada de todos excessos romanos, esta Juventude serve-se de um sentido de humor que não convence neste exercício de estilo calculado. Valha-nos a muito bela sequência onírica do sonho de Fred com uma praça de São Marcos inundada.

Sorrentino é um bom artista, sempre o foi, mas fica aquém de ser um contador de histórias competente. Depois do desastre que foi Este é o Meu Lugar, também em inglês, com um Sean Penn inclassificável, regressa com o making off do que será a apoteótica e presunçosa encenação final da mais famosa composição de Fred, The Simple Songs. Contudo, é precisamente essa falta de simplicidade que mancha o pano desta Juventude em marcha.


O melhor: Michael Caine não sabe fazer feio
O pior: O espalhafato burlesco que se esconde por detrás de um filme que ganhava mais em ser sereno

 


Paulo Portugal
(Crítica originalmente escrita em maio de 2015)



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