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«Il Racconto dei Racconti» (O Conto dos Contos) por Hugo Gomes

Poderíamos começar com as tão clássicas palavras "Era Uma Vez", mas Tale of Tales (Il racconto dei racconti) está mais próximo da original essência do conto, como ciclo ritualizado em socializações à volta da fogueira da Idade Média do que o inocente e terno dispositivo como é encarado pelo senso comum.

Assim sendo, esquivando a introdução, a nossa história decorre no reino longínquo onde vivia uma rainha infeliz e perturbada (Salma Hayek), pelo simples facto de não conseguir gerar um herdeiro para o seu devoto rei (John C. Reily). Mas mais que o próprio dever real, esta sonha profundamente em ser mãe, um desejo tão obsessivo que a faz aceitar a proposta de um misterioso desconhecido. Segundo este, para um filho ser gerado, o rei teria que abater um monstro, arrancar-lhe o coração, sendo que este seria mais tarde cozinhado por uma virgem e comido pela própria rainha. Como prova de amor, o rei decide seguir em frente nesta demanda, conseguindo com êxito superar o desafio. Contudo, as consequências são demasiado severas e ele tragicamente morre neste ato de bravura.

No entanto, é durante a cerimónia fúnebre que o vasto universo concebido por Matteo Garrone, através de uma livre abordagem ao livro de Giambattista Basile (aquele que fora considerado fonte de inspiração para outros "recolhedores" de contos, como Charlie Perrault e os irmãos Grimm), se expande, surgindo novas personagens e intrigas que mais tarde completarão um quadro de consequências em cadeia e veículos morais. O imaginário de Garrone é a catapulta do seu mais ambicioso projeto até à data, e de certa maneira irreconhecível com o seu estilo.

Sujeito a valores de produção invejáveis e um visual excêntrico e negro que gradualmente desconforta o espectador, Tale of Tales está longe de ser uma proposta recusável, mas é demasiado técnico e preso ao seu formalismo para assumir-se como algo mais denso que o pressuposto.

O realizador de Gomorra e Reality é um estranho em território desconhecido, porém, isso não o impede de forçosamente incutir a sua marca autoral. A primeira sequência do filme é exemplo disso, onde um espetáculo circense privado pela realeza e alta nobreza alude a um gesto algo bárbaro do próprio Garrone, porque mesmo sem a presença da televisão, este não foge às responsabilidades de fazer a sua crítica ao mundano espetáculo do entretenimento e à sua hipnotizante aura.

O melhor – Os valores de produção
O pior – um projeto demasiado ambicioso que se encontra preso ao seu rigor técnico e formalismo


Hugo Gomes



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