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«Still The Water» (A Quietude da Água) por Duarte Mata

Comecemos por falar da mais recente longa-metragem de Naomi Kawase, A Quietude da Água, como contendo algumas das imagens mais belas que, até agora, vimos este ano em tela. Embora a sua intriga não seja a maior das aptidões (por vezes reflexiva, por outras forçosamente sentimental), é a forma como esta encaixa no estado turbulento da Natureza (tufões, marés altas, o filme é um enorme aquário que temos medo que rebente) que torna este trabalho tão chamativo e isolado, como a pequena ilha onde a acção decorre.

Com uma forte componente autobiográfica - foi feito pouco tempo depois da morte da mãe adoptiva da realizadora - contém por isso um dos maiores temas do cinema nipónico: a família. Há uma juventude à descoberta do sexo e da morte (lembramo-nos, por isso, de A Brighter Summer Day de Yang), pela personagem de uma adolescente filha de uma xamã, e a irrequietude e incompreensão por um rapaz, fortemente afectado pelo divórcio dos seus pais. Ainda na análise dessas duas descobertas, Kawase define-os como opostos na sua narrativa que tenta a custo unir num só elemento (a água), o que só consegue no final, raro, íntimo e profundo. Pedantismo? De maneira nenhuma, a cineasta sabe lidar com as vicissitudes do seu cinema de autor, sobrepondo uma veia carismática e artística de alta sensibilidade que o torna maioritariamente credível na sua intenção.

Ainda há outros apanágios, dignos de serem notados: A morte de uma das personagens secundárias, com danças e canções ao seu redor, ao invés de murmúrios e lamentações; longos travellings a acompanharem viagens duras de bicicleta; a degolação autêntica de duas cabras. Tal como em O País das Maravilhas recentemente estreado, há aqui uma busca ontológica no elo Homem-Natureza. E depois... Depois há Tóquio numa curta cena filmada com a mesma paixão que havíamos visto em Like Someone In Love de Kiarostami. Um filme que, tal como este, tem um olhar sábio e sensato sobre a geração mais nova, através do carácter de um pequeno idoso. Mesmo com as suas imperfeições, A Quietude da Água é bem sucedido no que se compromete: uma vaga fria e maternal na cabeça do espectador que a contempla.

O melhor: As imagens da Natureza.
O pior: Duração ligeiramente excessiva, muito sustentada por uma câmara tremida que nem sempre é bem-vinda.


Duarte Mata 

 



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