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«Gett» (Gett: O Processo de Viviane Amsalem) por Hugo Gomes

Algo tão comum e fácil de ser obtido no Ocidente é quase uma tragédia de arrecadar em Israel. Pelo menos é isso que é demonstrado em Gett: O Processo de Viviane Amsalem, a luta de uma israelita em conseguir o divórcio do marido (divórcio = gett) com que convive há mais de 30 anos, pelo simples motivo de não sentir qualquer amor por este. É um facto que é incompreendido na comunidade religiosa judaica, assim como os conservadores juízes que não poupam nos julgamentos desiguais entre sexos.

Dirigido pela dupla Ronit e Schlomi Elkabetz, Gett fecha uma ousada trilogia de denuncia das "anormalidades" que tal sociedade parece engendrar. Neste caso, o tribunal das disputas matrimoniais é o alvo dessa analise, o limiar do burlesco e do surreal. No centro deste filme, filmado sob quatro paredes (todo o enredo decorre dentro do tribunal, mesmo na passagem dos meses / anos), encontramos a atriz e realizadora Ronit Elkabetz (que há uns anos vimos como protagonista na primeira incursão cinematográfica de Fanny Ardant, Cinzas e Sangue) e que conduz uma personagem singular, cujas primeiras emoções são expressadas através do seu visual.

Pois bem, por entre os episódios temporais deste demoroso julgamento, a Viviane do titulo é uma mulher à mercê da perspetiva masculina numa comunidade que sobrevaloriza o homem como o catalisador das decisões e na posse das suas esposas como propriedade. Silenciosamente indignada por esse sistema, é no seu vestuário e cabelo que reside a sua libertação corporal. Por exemplo, em 80% da fita, Viviane ostenta o preto como um luto interminável pela sua liberdade. Nos momentos mais acesos do processo, a vestimenta torna-se vermelha, fortalecendo um conflito que se converte de algo intimo em um verdadeiro palco de guerra.

Posteriormente, o branco marca a presença, manifestando uma emancipação emocional de que a protagonista torna-se alvo, numa das actuações mais fortes e explosivas da carreira de Elkabetz. O cabelo também tem o seu papel, neste caso num modo desafiador e guerrilheiro para com o tribunal. Esta linguagem corporal e visual assenta que "nem uma luva" na direção do par de realizadores, que por sua vez oferecem-nos um filme que desafia o próprio estilo académico (basta ver a quantidade de "saltos ao eixo" que a câmara executa durante os depoimentos).

Depois é o modo trocista que os cineastas indiciam em toda a narrativa. A caricatura encontra-se de certa forma presente na descrição do tribunal, nas testemunhas que entretanto surgem em "palco", aludindo a criticas sociais, e no próprio processo ritualizado da simples facultação do divórcio. Visto como um herdeiro de 12 Homens em Fúria, de Sidney Lumet, Gett ainda nos presenteia com um certo tom vintage. Este é um filme do qual será difícil nos divorciar.

O melhor - o desempenho de Ronit Elkabetz
O pior - uma ou outra personagem demasiado estereotipada


Hugo Gomes



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