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«Fifty Shades of Grey» (As Cinquenta Sombras de Grey) por Hugo Gomes

Com As Cinquenta Sombras de Grey testemunhamos o regresso do erotismo na grande indústria cinematográfica, resgatando ao cinema independente e de autor essa tendência e coragem que tanto aplicaram nos últimos anos. Talvez venha a ser esta a mais bem-sucedida franquia do género erótico desde Emmanuelle, e sob essa vertente vemos com certo agrado esta adaptação do romance sensual de E.L. James, um fenómeno literário que nasceu dos fóruns de fãs de Twilight e que posteriormente foi publicado, criando um mediatismo que tão poucas obras conseguiram deste então.

Mas não se iludam, as representações sexuais e todas as insinuações que Sam Taylor-Johnson  (Nowhere Boy) invoca estão longe de surpreender, até porque vivemos numa época em que a pornografia está à distância de um clique e o sexo está em todo o lado, por vezes até vulgarizado, seja na televisão ou novas plataformas, assim como no cinema, no qual nos situamos em tempos após Ninfomaníaca, a tão badalada exploração sexual que Lars Von Trier dividiu em duas partes.

Mas uma coisa é certa, As Cinquenta Sombras de Grey não irá conquistar ninguém que esteja a viver a descoberta sexual. Ao invés, é um must para todos os que leram o livro e que o idolatram. Uma espécie de júbilo cinematográfico nesses termos, o filme de Sam Taylor-Johnson tem a virtude de ser uma obra esteticamente elaborada, mesmo nas sequências sexuais, todas elas bem filmadas. Porém, este mesmo elemento perde o erotismo em derivação de um ponto crucial. Temos bom sexo softcore, encenado e coreografado a bom ritmo, mas sempre acompanhado por uma banda-sonora demasiado pop que retira de vez sexualidade às cenas. Triste, sabendo que essa era a grande arma de As Cinquenta Sombras de Grey, visto que o argumento em si não ajuda, até porque temos tendências mimetizadas ao fenómeno Twilight (a sério que não se entende o porquê de "namorados" com gestos obsessivos e persuasivos para com as liberdades das suas companheiras). Por outro lado, temos uma intriga que parece venerar algo que tende a ignorar profundamente. Falo do sadomasoquismo que nunca é verdadeiramente mencionado, ou o de contrariar a própria integridade da mulher.

Possivelmente, todos esses defeitos primários são inteiramente culpa do livro que se resumiu desde sempre como uma fantasia fetichista de contornos feministas (embora este ponto seja motivo de um longo debate que o pode catalogar como «machista»). Mas a pergunta reside. O que podemos esperar de As Cinquenta Sombras de Grey? Mais do mesmo. Um mediatismo que não se sabe o porquê e um romance disfarçado de ingenuidade e constantemente mal encenado (ao contrário do sexo). Falta-lhe conflito, personagens verdadeiramente decentes e não falo só das principais, mas sim das secundárias, que estão longe de fugir à dispensabilidade, para além de uma dúzia de situações que em nada adiantam à narrativa e que somente estão presentes para compensar o que de muito se cortou no livro.

A realizadora Sam Taylor-Johnson esforçou-se para ilustrar uma obra erótica sob parâmetros constrangidos e limitações desde cedo marcadas. O resultado está longe de agradar, mas só pela sua dedicação em trazer alguma dignidade à matéria-prima, pelo menos vale meio bilhete. E o final é prova disso, no qual se tenta contrariar uma fantasia mal resolvida e incompreensivelmente bem-sucedida.

O melhor – A realização de Sam Taylor-Johnson e a estética
O pior – O constrangimento erótico em consequência de uma banda-sonora mal escolhida e o argumento


Hugo Gomes



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