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«Cavalo Dinheiro» por Duarte Mata

Desde há uns anos para cá que os filmes de Pedro Costa têm sido verdadeiros fenómenos nos circuitos cinéfilos internacionais. Goste-se ou não (se bem que o seu cinema seja mais do que uma questão desse género), é impossível não se deixar de valorizar que os seus filmes, feitos apenas por uma equipa de quatro pessoas na fase de rodagem, ganhem uma divulgação e reconhecimento superior a todos os cineastas portugueses contemporâneos. Senão, vejamos: as suas películas são incluídas nas melhores do ano de prestigiadas revistas cinematográficas como a Cahiers du Cinema e a Film Comment, trata-se do único realizador português cuja parte do trabalho a Criterion escolheu para a sua coleção, já foi nomeado e premiado para a seleção oficial nos Festivais de Cannes, Veneza e Locarno, para além de eventuais retrospetivas, masterclasses e conferências que dá nos vários cantos do mundo. É um feito.

Em Cavalo Dinheiro prosseguimos com a jornada de Ventura (já conhecido de anteriores filmes do cineasta). Está doente e internado num hospício, sem os seus "filhos" (como chamava à comunidade das Fontainhas em Juventude em Marcha) e languescido, julgando que está a viver o 25 de Abril, tendo, ao longo de uma "noite Baudelairiana" (Costa em Locarno, donde saiu com o prémio de realização), pequenos reencontros imaginários com personagens que o marcaram nessa altura. É um permanente conflito interior, cuja equanimidade tenta ser alcançada com a ajuda de Vitalina, uma viúva que, juntamente com o marido, perdeu a fé.

A memória é aqui retratada como algo presente de forma fantasmática e traumatizada. Cada cenário onde Ventura é inserido é um espaço de catacumbas e exílio. Ao iniciar com fotografias do jornalista Jacob Riis, retratando emigrantes desfavorecidos na América do princípio do século passado, Costa cria um axioma de repetição histórica. Não há terra de oportunidades, nem antes, nem agora. Sim, é o mais político dos seus filmes, mas também o mais assombroso e surreal.

A fotografia (a cargo de Leonardo Simões e do realizador) é predominada por sombras e negros que ocultam a maioria do enquadramento, numa estética visual que Costa tem vindo a explorar (e a aprofundar) desde Ossos, alumiando (ou escurecendo) as personagens a olharem para o céu ou uma luz em fora-de-campo. Nunca rostos tinham sido filmados assim.

Quanto ao segmento de Costa, Lamento da Vida Jovem, do filme Centro Histórico, este é reaproveitado. A cena referida decorre num elevador, com o protagonista e um soldado empunhando uma metralhadora. Sós, e com um passado em comum, o militar murmura frases como "Também és um soldado, Ventura"; "Tiveste mil mortes, que diferença te fará mais uma?". Nós somos a nossa memória, parece Costa dizer ao longo desta hora e quarenta e cinco. E, seja sobre a Revolução, o passado, as Fontainhas, a emigração, a vida, ou talvez mesmo tudo isto, este é, sem dúvida, um dos filmes portugueses mais fundamentais do século XXI.

O melhor: A expetativa preenchida e não desapontada do regresso de Costa à longa-metragem, após uma ausência de 5 anos.
O pior: Infelizmente, como acontece com tanto outro filme nacional, será menos saudado em Portugal que no estrangeiro, com as reações habituais de desprezo versus exaltação patriótica.


Duarte Mata



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