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«Phoenix» por Paulo Portugal

E eis que ao cruzarmos a metade do festival recebemos finalmente um filme que assombra. E que é assombrado. Um prodígio de cinema desde logo o mais forte candidato à Concha de Ouro. Sem, qualquer desprimor para o excelente festival de San Sebastián, mal se percebe como o novo Petzold não passou pela competição de Veneza e seguiu logo para Toronto.

O alemão Petzold já nos habituara a um cinema rigoroso, denso e intrigante – recorde-se que foi premiado há dois anos atrás com o Urso de Prata em Berlim para Barbara, numa narrativa ambientada na Alemanha Democrática. Embrenha-nos agora num drama profundo que acorda os fantasmas do pós-guerra germânico inflamado por uma história de um romantismo tão velado quanto perturbador, recriado pela valiosa colaboração com o talentoso Harun Farocki, recentemente desaparecido. Apesar das suas várias dimensões não será alheia a sombra de Hitckcock que assombrou James Stewart e Kim Novak em Vertigo – A Mulher Que Viveu Duas Vezes. Só que aqui no inverso. Mas já lá vamos.

Uma vez mais a trabalhar dentro do seu grupo de Berlim, Petzold chamou Nina Hoss, a sua atriz fetiche, para encarnar o papel de Nelly, a única membro viva de uma abastada família judaica que viveu o horror de Auschwitz. Sobrevive o final da guerra e tem as condições suficientes para recuperar a sua fisionomia com uma operação de reconstituição do rosto desfigurado por uma bala.

Desumanizada, e com uma cara que não é a sua, pois os médicos não tiveram referência para a reconstituição eficaz, tentará, ainda assim, encontrar a sua cara metade, o marido pianista Johnny (Ronald Zehrfeld, que contracenara com Nina em Barbara) com quem tocava habitualmente na noite de Berlim.

Aconselhada a não se revelar por forma a verificar que só marido lhe fora fiel, Nelly aceita assumir, mesmo diante dele próprio, que desejava tentar recuperar a fortuna dela, uma outra identidade – afinal de contas, a sua. E é nessa composição gradual do seu próprio papel que se vive um turbilhão de emoções a coroar um climax final. Poderá ela encarar a realidade após esta experiência? Poderá ele recuperar aquilo que dera por perdido?

Mais do que colocar a tónica do mito da fénix em Nelly, Petzold confessou-nos numa saborosa e esclarecedora entrevista que "Nelly não é a fénix; ela não se reinventa; Fénix será mais a nação alemã que procura reerguer-se das cinzas".

Seja como for, percebe-se que esta é a melhor interpretação de sempre de Nina Hoss – prémio de interpretação à vista? - num filme depurado, profundamente enraizado numa estética que procura evocar a fotografia e a luz do cinema negro e dos mestres alemaes forçados a abandonar o país com o nacional socialismo.

O melhor: O fulgor desta história de fantasmas devidamente ancorado pela prestação de Nina Hoss.
O pior: nada de relevante a assinalar.


Paulo Portugal
(Crítica originalmente escrita em setembro de 2014)



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