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«Ida» por Nuno Miguel Pereira

O Holocausto tem sido um dos temas prediletos ao longo dos anos (e.g. Lista de Schindler, A Vida é Bela), tendo estes retratos sempre uma estranha ligação em comum: amenizar a dor e criar uma espécie de final feliz, tornar algo horripilante num "feel-good movie". Algo que Pawel Pawlikowski nunca poderia fazer, não fosse ele filho da nação (Polónia) que mais sofreu nesse período que a história e o cinema tendem a suavizar.

Pawlikowski tinha até então uma caraterística comum nos seus filmes: a beleza na cinematografia. Por outro lado, por exemplo, em Amor de Verão (de 2004), os cenários quase que convidavam as pessoas a entrar. Em Ida, o sentimento é o oposto; a igualmente deslumbrante cinematografia é retrato reflexivo e frio, contado com a frieza que a ausência de cor – o filme é a preto e branco – consegue transmitir.

A história remete-nos para uma Polónia em domínio comunista, nos anos 60, quando ainda apanhava os cacos que a Segunda Grande Guerra deixou, e leva-nos a Anna (Agata Trzebuchowska), uma órfã de 18 anos a viver num convento, prestes a completar os votos para ser freira.

Para uma rapariga judia de 18 anos que nunca viveu fora do convento não existe outra realidade, por isso, nunca foi tentada a outra vida, daí que a dúvida nunca tenha feito parte da sua mente.

Nesse sentido, a madre superior do convento encoraja Anna a ir ter com a sua única familiar viva, antes dos seus votos. Altura em que surge Wanda (Agata Kulesza), a sua tia. Uma juíza, profundamente amargurada e depressiva, que utiliza o álcool para expiar os seus demónios, mas que se torna uma espécie de imagem refletida do contexto daquela época. Rapidamente Wanda conta a Anna as suas origens judias, assim como o seu nome verdadeiro, Ida. Juntas partem à procura do destino final que os pais de Anna/Ida tiveram.

A partir deste momento, uma história que facilmente se poderia tornar uma aventura banal, torna-se ainda mais fria e somos levados a desconstruir estas duas personagens. Ida é profundamente idealista e ingénua, ao passo que Wanda, se tornou cínica e amargurada.

Com um cenário destrutivo em pano de fundo, observamos o rito de passagem de Ida, com as tentações de uma outra realidade a passarem-lhe pela frente e a faze-la vacilar. Ida acaba por se perder dentro das convicções dela e nós perdemo-nos com ela. Isto sempre num ritmo lento e reflexivo, oferecido pelo filme.

Agata Trzebuchowska – a Ida – é um dos fatores principais que tornam esta obra tão especial, não tendo particularmente um desempenho abismal. A sua vagueza no olhar e na forma como fita as pessoas, o seu ar angelical e a sua pele branca, conferem ao filme a beleza estética que potencia o outro nível: a reflexão. Esta observação peca somente por não vir acoplada com uma abordagem mais estóica; o filme é severo na forma como olha para si mesmo, mas não é severo na forma como olha para fora. Isto é, a sua brevidade (80 minutos), apressa alguma das situações (o crescimento mental de Ida é quase abrupto), não trazendo uma mensagem mais concreta. A sua extrema subjetividade pode, de certa forma, ser confundida com falta de um objetivo concreto, o que não é de todo o que acontece com esta excelente proposta.

Assim, este filme polaco é uma absoluta surpresa na forma como vê o holocausto, utilizando duas gerações (Wanda e Ida) para criar uma dualidade de visões, evoluindo de forma lenta e contemplativa. A excessiva frieza talvez possa servir para afugentar aqueles que procurem mais emoção, mas aqui o que se pedia era contenção, sempre acompanhada de uma fotografia brilhante.

O Melhor: A Cinematografia espantosa.
O Pior: Excessiva frieza por vezes.


Nuno Miguel Pereira



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