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«Rio 2096: Uma História de Amor e Fúria» por Hugo Gomes

Chegamos à conclusão que o cinema fica sempre do lado dos mais "fracos", das minorias, dos oprimidos e desfavorecidos. Essa verdade é um facto. Com Rio 2096: Uma História de Amor e Fúria esse mesmo facto é servido como uma colectânea onde a imortalidade e a reencarnação são os únicos elos que interligam as diferentes histórias, todas elas (excepto o último acto) que abordam confrontos ou revoluções que ditaram o rumo do Brasil.

Esta animação de Luiz Bolognesi bem poderia ficar-se por um modesto exercício panfletário, por vezes invocando as memórias de um certo cinema de Serge M. Eisenstein, não em derivação da sua montagem mas sim na representação da multidão e os revoltados como heróis colectivos que culminam em mártires. Contudo, Rio 2096 tenta mistificar esse tal herói no plural, aufere-lhe protagonismo e acima de tudo uma cara para que nos possamos identificar, para, no final, um último acto que concentrar uma distopia digna de ficção cientifica dos irmãos Wachowski, libertando uma mensagem revolucionária de foro moralista que cede às infantilizações e facilitismos sociais. E tendo em conta o fictício deste último capítulo, as liberdades são propicias para a libertação da mensagem proferida. Acredito que tal seja algo que não é "disparado" ao acaso, sabendo que o Brasil foi no ano passado (o ano de produção desta obra) palco de manifestações e revoltas de um povo cansado das medidas questionáveis dos seus governos. Assim, tal mensagem por mais panfletária que seja tem alguma afinidade com os seu conterrâneos, o "nunca desistir" que se torna numa arma populista, apta para desencadear um movimento de atuação perante tal cenário ainda hoje vivido.

Rio 2026 é, para além disto tudo, uma animação tecnicamente irrepreensível que incentiva o espectador a não recusar a ideia concebida em prol de um grafismo sedutor, mas infelizmente o filme de Luiz Bolognesi soa somente como esse boletim marginal de bonito embrulho o que em termos cinematográficos não consegue fugir da sua esquematização, do estereotipo social e do vazio inerente das suas personagens e situações expostas. É de agradável vista, mas fiquemos pelo fogo de artificio, porque a sua mensagem merecia mais do que uma pequena brisa, um tributo ligeiro aos caídos dos campos de batalha.

"Os meus heróis não viraram estátua, morreram lutando contra os caras que viraram."

O Melhor - O visual e a ideia apesar de tudo
O Pior - é uma mensagem revolucionária, mas não haverá outras formas de luta-la que não pela violência sem querer cair na hipocrisia.


Hugo Gomes
(Crítica escrita em abril de 2014)



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