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«Lore» por André Gonçalves

Lore marca o regresso da australiana Cate Shortland às longas-metragens, nove anos após o auspicioso Sommersault, até então o seu único filme.

Em comum com a sua estreia, temos a odisseia de uma adolescente (aqui, outra magnífica revelação em Saskia Rosendahl), pelo mundo cruel que a rodeia, enquanto tenta descortinar o que é real do que é contado. Mas em termos formais, este segundo filme representa um risco bastante maior: afinal de contas, estamos perante uma história raras vezes contada: o pós-Segunda Guerra Mundial pelos olhos de uma família nazi. E não falamos também de uma mera violência emocional/romântica. Em Lore temos de tudo (cadáveres, situações extremas de sobrevivência, ...), e muito pouco é recomendável a mentes sensíveis.

O trunfo de humanizar o outro lado, sem nunca adotar moralismos de "bons" contra "maus" (Lore e as crianças não são necessariamente beatificáveis, muito menos o "judeu" que as acompanha...), é apenas um pequeno indício da qualidade aqui presente. Shortland apresenta-nos uma Alemanha pós-guerra impressionista e misteriosa, misturando um clima de tensão e erotismo com a inocência de quem está agora em conflito com tudo o que lhe foi ensinado. O espectador é também ele convidado a voltar a ser criança/adolescente, e no final a sensação é algo parecida à de ter levado um murro em seco, ao mesmo tempo que nos lavavam a cabeça com água quente. Seria muito difícil pedir mais de um filme que espero genuinamente ver perdurar nas duas únicas salas de cinema onde estreou...

O melhor: a atmosfera única de Shortland, a ambiguidade não resolvida
O pior: Só duas salas em todo o país?


André Gonçalves



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