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«Amour» (Amor) por Roni Nunes


Se algum dia um antropólogo de um futuro distante quiser fazer um estudo sobre como se envelhecia e morria no mundo ocidental no início do século XXI, ele poderia começar com o visionamento deste filme de Michael Haneke. Ele diz tanto sobre a nossa sociedade quanto o reconhecimento que a obra vem obtendo (Palma de Ouro à cabeça): mais que um mero barómetro do gosto artístico de uma época, é demonstrativo do nosso imaginário coletivo – e do facto dele estar em sintonia com essa abordagem racionalista e amoral sobre a dura realidade do fim.

Em “Amour”, como na quase generalidade dos seus trabalhos, é o no meio de classe média esclarecida (com especial predileção para os músicos) que o cineasta vai pôr a trabalhar a sua câmara dissecadora. Georges (Jean-Louis Trintignant) e Anne (Emanuelle Riva) são professores de música reformados e vivem uma plácida relação de companheirismo e cumplicidade até serem confrontados com a degenerescência física. 

A partir daqui entre em cena o registo realista com a crueza do costume, onde o espetador é confinado num único cenário durante duas horas e no qual a noção do amor, aqui desapaixonado, sem romantismo, revertido a um exercício estoico de entrega, será o único lenitivo para o aproximar do fim. Tal como no amor, a maneira com que as suas personagens reagem à degeneração não é sentimental – assim como a forma que o realizador escolhe para mostrá-la, compondo uma observação do quotidiano que, especialmente no desenlace (últimos 15 minutos), chega ser quase ritual

Se essa forma de sentir tipicamente europeia é uma característica do nosso tempo, ainda mais ilustrativo é o enquadramento geral do filme e da própria obra de Haneke. Está-se plenamente inserido no mais pantanoso território da erosão da moral que carateriza o pensamento e ação no século XXI, objeto ao qual a aridez linguística e estética do cineasta austríaco serve como uma luva para trabalhar. Sua obra aponta justamente para as consequências dos abandonos ou transformações dos velhos conceitos que o ser humano utilizava para guiar a sua ação. Essa noção, por fim, prende-se à terrível ideia de que, uma vez mortos deus, o além e a vida após a morte das antigas crenças religiosas, o Ocidente materialista não sabe como enfrentar o sofrimento físico e psíquico do envelhecimento e da doença. Uma das temáticas, aliás, do magnífico inventário conceitual da pós-modernidade que era “As Invasões Bárbaras”, de Denys Arcand.

De resto, trata-se de um realizador que inventou um estilo reconhecível a milhas e que a estas alturas o domina e manipula com maestria. A sua forma muito particular de utilizar elipses, que tanto omite o que supostamente deveria ser importante como mostra longamente o evoluir daquilo que é rotina, define um jogo de escolhas tão arbitrárias como estimulantes, diversificando a construção de um retrato de cunho realista que está longe do óbvio. Estão lá os característicos enquadramentos “tortos” e os sentimentos de desconforto que geram. Os atores são magníficos e não deixar de ser arrepiante pensar em “Hiroshima Mon Amour” e acompanhar o próprio processo de envelhecimento de Emanuelle Riva num desempenho extraordinário.

Se parte do final é entregue já na cena inicial, a conclusão não deixa de ser um achado de elegância e pura poesia, tão suave e silenciosa… como a própria morte, talvez.

O Melhor: a combinação entre a ritualização da rotina e a força daquilo que não é mostrado
O Pior: nada a apontar
 

 
 Roni Nunes
 



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