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«127 Hours» (127 Horas) por Jorge Pereira



Danny Boyle é um cineasta promíscuo no que toca aos géneros cinematográficos que aborda. De dramas (“Slumdog Millionaire”) a thrillers (“Shallow Grave”), passando pela ficção científica (‘Sunshine”) e obras de terror (“28 Days Later”), o britânico lá vai deixando a sua marca no cinema, sempre com um cunho muito pessoal, e um estilo de realização em forma de videoclip que o acompanha quase sempre.
 
Em “127 Horas”, Boyle entra no campo das cinebiografias, um género que à partida limita mais a criatividade, pois existem barreiras nas pessoas e nas suas histórias verídicas das quais não se pode ultrapassar. Isto teoricamente, pois há cineastas que funcionam ao contrário, ou seja, quanto mais imposições se lhes colocam, mais criativos têm de ser para ultrapassar esses muros narrativos.
 
O certo, é que Boyle consegue de forma energética transformar um filme que poderia ser um grande drama de sobrevivência à Ron Howard, cheio de heroísmo da condição humana, num trabalho mais ligeiro do que o que se podia esperar, e sempre, mas sempre, com aquele tom de realização estilizada em que a montagem é a grande arma, quando bem apoiada na interpretação principal, fulcral para a dinâmica global.
 
Essa ligeireza com que aborda verdadeiros melodramas, que já tínhamos visto em “Trainspotting” e “Slumdog Millionaire” (filmes com problemas muito sérios mas que por vezes entram com facilidade na comédia), é um dos seus maiores trunfos e pecados. Trunfo porque foge aos clichés, pecado porque muitas vezes é acusado fazer filmes superficiais e transformar assuntos demasiado sérios (como a droga e a pobreza) em elementos pouco introspectivos e melodramáticos.
 
Baseado em eventos reais, ‘127 Hours’ segue  a história do montanhista Aron Ralston, um homem que se tornou conhecido em 2003 por ter amputado o seu braço direito devido a uma situação de vida ou morte no Utah. Curiosamente, essa é a cena que toda a imprensa fala, porque aparentemente houve muitos desmaios nas salas de cinema quando ela se desenrola.
 
Bem sei que estou habituado a ver cenas gore desde cedo, tendo sido bem treinado em filmes de Takeshii Miike ou em clássicos como “Canibal Holocaust”, mas mesmo assim, toda a esta conversa dos “desmaios” parece mais uma forma de promover o próprio filme, e de saírem mais notícias sobre ele. Sim, a cena é impressionante, sim ele corta com um alicate o braço, mas se olharem para o lado nessa cena específica confesso que não perdem grande coisa, pois ao contrário do que possam imaginar, a cena não é tão marcante na obra como certamente o esperam.
 
E não o é porque todas as outras sequências no desfiladeiro onde Ralston (James Franco) se encontra, retido com um pedregulho em cima do braço, são bastante poderosas, especialmente quando a realidade e o sonho começam a confundir a própria personagem e o espectador, um pouco como acontecia com a personagem principal de “Touching The Void”, quando se perdeu na Siula Grande nos Andes Peruanos.
 
“127 Horas” é assim um filme de sobrevivência, mas não um melodrama novelesco, ou a história de um coitadinho. É o filme de uma pessoa que se vê numa situação extrema e que para tal recorre a medidas extremas para sobreviver. Em “Alive” entramos no canibalismo, aqui tocamos na amputação humana. Mas se olharmos ao longe, ambos os filmes abordam a sobrevivência a todo o custo, e podiam ser assim comparados. Porém, a direcção e a forma como Boyle mostra o seu alpinista, é muito diferente do habitual, sendo mesmo a tal ligeireza que falei, a melhor forma de o descrever, como se este fosse apenas um episódio da vida de Rolsten, marcante mas não decisivo. E não confundam ligeireza com unidimensionalidade ou superficialidade. Não, a ligeireza é apenas no foco do cineasta, que parece estar mais interessado no estado mental da sua personagem do que naquilo que pensamos dela e dos seus actos.
 
Assim, e sempre mantendo aquele desenrolar da história à la Danny Boyle, com música que eleva a alma e mostra os limites da condição humana, “127 horas” é um bom filme para assistir no cinema, ainda que não me pareça que entre nas contas dos Óscares, a não ser pelo seu actor principal, James Franco.
 
Quase toda a força do filme estava na sua interpretação, e esta não desilude, mostrando um homem repleto de vida, a espaços sentimental no que toca à família, mas nunca um farrapo humano, ou um coitadinho. E aqui é importante voltar a frisar o trabalho de Boyle e da montagem, que quando misturam o real e o sonho nos deixam completamente confusos e sem saber bem o que está perante os nossos olhos e os de Ralston.
 
A ver…
 
O Melhor: A ligeireza não superficial com que Boyle aborda este drama
 
O Pior: O final em estilo videoclip faz por demasiado lembrar como encerra “Slumdog Millionaire”.
 
 

Jorge Pereira


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