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«Disobedience» por André Gonçalves

  • Publicado em Critica

Segundo o Tora, Deus criou três tipos de entidades: Anjos, Bestas, e ao último dia, o Homem, nem Besta nem Anjo, dotado de liberdade para desobedecer. 

Sebastián Lelio, responsável por alguns dos estudos de personagens femininas mais marcantes dos últimos anos (Gloria, Uma Mulher Fantastica) decidiu também ele desobedecer um pouco a esse padrão, pelo menos temporariamente, e decidiu participar numa história a três, onde cada vértice do triângulo acaba também por si por representar um ponto do espectro na devoção à comunidade judaica onde cresceram. 

Acabando de saber que o seu pai, o rabi da comunidade, morreu (após proferir o discurso presente no primeiro parágrafo), Ronit (Rachel Weisz), a renegada desobediente, regressa a casa. Aí depara-se logo com o discípulo preferido do seu pai, Dovid (Alessandro Nivola), e posteriormente com Esti (Rachel McAdams). Ronit eventualmente percebeu que, de modo para ter liberdade para pensar por si, tinha que sair do espaço que a viu crescer. Esti acaba por ser no fundo a versão dela que não conseguiu sair de casa, e acabou por assentar com Dovid, como única escapatória/cura para os seus desejos de besta que acabaram por ser notados... um compromisso que a chegada de Ronit vem abalar. 

Perante este enredo inescapavelmente novelesco, Lelio convoca até um registo clássico, Sirkiano, de "filme de mulheres", de melodrama puro. Este sempre foi um género bem discriminado, mesmo com o revisionismo por outros autores contemporâneos (Pedro Almodóvar, Todd Haynes, etc. ), porque a telenovela - i.e. o melodrama mais comercial - sempre soube também simplificá-lo. Aqui, não haja dúvidas: há cinema para dar e distribuir. 

Ora usando tracking shots para acompanhar estas personagens (ironicamente sem um rumo bem decidido), pondo-nos como testemunhas deste affair, ora aproximando então a câmara para nos revelar nuances, ou aquilo que é efetivamente importante para as personagens, Lelio vai formando uma tapeçaria complexa de emoções nas quais o trio Weisz, McAdams e Nivola são co-artesãos.  Sem os três atores, os múltiplos desenlaces e os falsos finais poderiam ser mais desorientantes do que já são. É graças à sua entrega que aceitamos esta oferta genuinamente humana de Lelio como uma obra de amor, que talvez não saiba bem como sair de cena, sim, mas até aí se mantém fiel às suas personagens. 

Que um filme tão cativante como este não consiga estreia comercial em sala é sem dúvida mais alarmante que qualquer imperfeição que possa possuir. 

 

André Gonçalves

 

«Sauvage» por André Gonçalves

  • Publicado em Critica

Tendo sido apelidado como um dos filmes-choque de uma mesma edição Cannes que recebeu também Lars von Trier no seu modo mais psicótico, Sauvage surge precisamente no tempo certo. 

Numa época onde tanto se fala em legalizar/regulamentar o trabalho sexual, ou até questionar essa atividade enquanto trabalho, argumentando que o corpo é mais mercadoria que força, esta estreia de Camille Vidal-Naquet tem tudo para incendiar ainda mais debates, e reforçar tanto noções abolicionistas (aquelas que defendem que devemos a todo o custo repudiar a prostituição como trabalho digno) como noções libertárias do corpo como instrumento deste "trabalho" em concreto. 

Leo tem 22 anos e já não sabe há quanto tempo vende o corpo em troca de dinheiro para ir sobrevivendo. Ou não quer dizer, dado que esta informação surge via uma consulta médica. Afirma-se como gay, ao contrário do seu protegé de rua pelo qual nutre um amor inconfessável, daqueles amores de adolescência que teimam em ser não correspondidos, se não contarmos a violência como correspondência...

Por um lado, não há ilusões aqui para esta Cabiria dos tempos modernos - o realismo não é o de Fellini, mas sim o de outros franceses pós-nouvelle vague. Vem até estranhamente à memória (talvez por uma revisão recente) Sans Toi Ni Loi (Sem Eira Nem Beira) de Agnés Varda (1985), no qual uma outra figura "renegada" da sociedade deambula pelas ruas, por lares diferentes, procurando o seu lugar numa sociedade que não a compreende - nesse, o olhar sempre enigmático das pretensões da protagonista e das origens para este estatuto "sem abrigo" eram discutidos pelos "olhos" de quem se cruzava em narrações episódicas; aqui, o olhar está todo concentrado no corpo desnudado entregue pelo cada vez mais impressionante Félix Maritaud (120 Batimentos Por Minuto, Un Couteau Dans Le Coeur).

E não se trata apenas de mostrar nudez (e sexo) entre homens para chocar o homem heterossexual branco, o que mais facilmente terá um instinto (social?) em querer salvar estes rebeldes, colocando-os em posições sociais mais confortáveis - mesmo que não estivesse dinheiro envolvido na transação. Trata-se, lá está, de abrir as nossas lentes limitadas constantemente por uma discussão que teima também ele em não expandir, e não aceitar que a vida de um prostituto de rua não é glamorosa, sim, mas que há um espectro nestes encontros e vão surgir outras atividades em complemento ou alternativa à penetração peniana, da manifestação de empatia e carinho terapêuticos (mesmo que a troco de dinheiro) às violências/violações de dignidade mais revoltantes, a roçar a certo ponto o masoquismo, traço não tão incomum da nossa natureza enquanto espécie como se possa pensar.  

O protagonista acaba por aturar todas estas violências - físicas, psicológicas, sentimentais - para no final querer apenas poder respirar, literalmente e metaforicamente. E se respirar implicar querer usar o corpo como um uniforme, uma máquina verhoeviana (referência assumida a Kyle Buchanon em entrevista) que se retoca, costura, e se vira do avesso, eis talvez a maior provocação. Vidal-Naquet acaba por sugerir assim, pelo menos para este espectador, que a "salvação branca" pode ser em si um final bem mais deprimente do que poderíamos esperar, também aí deitando uma acha à fogueira ao debate público... 

 

André Gonçalves

«Kin» (Arma Letal) por André Gonçalves

  • Publicado em Critica

 

Geralmente, a principal queixa da expansão de uma curta-metragem para o formato longa-metragem é sentir que não havia assim tanto mais para contar. 

No caso dos irmãos gémeos australianos Jonathan e Josh Baker, adaptar a sua curta Bag Man revelou-se a oportunidade de deitarem tudo o que tinham cá para fora, como se esta fosse a sua última oportunidade. Como se tivessem adivinhado que, entre a possibilidade de ficarem enterrados num catálogo cada vez mais vasto de uma certa plataforma de streaming, ou serem despejados no pior fim de semana para se lançar filmes, só iam ter uma tentativa de contar o que poderia facilmente ser desenvolvido numa nova saga. Sendo assim, saímos de Kin incertos de todas as peças funcionem, mas também fascinados por elas todas estarem aqui à disposição.

Estamos, em primeiro lugar, e para maior das surpresas, perante um filme "classicista", no sentido em que nutre claro carinho pela ficção de perseguição de outrora, incapaz até de ceder ao confronto fácil, e até render-se aos set pieces de um Terminator. Aqui a perseguição a estes dois irmãos de origens diferentes (Myles Truitt e Jack Reynor) parte de duas frentes: uma equipa procura uma arma que o irmão mais novo roubou de um edifício abandonado, enquanto caçava sucataria; outra, liderada pelo mafioso Taylor Balik (James Franco, inicialmente parecendo ter saído do cenário de Spring Breakers, para imediatamente impôr respeito com uma máscara psicótica tanto à sua medida) procura vingança por um "trabalho incompleto", por assim dizer.

Ora, esta duplicação, à qual se junta um confronto adicional ali pelo meio, faz desde logo prometer uma ação que o filme não busca oferecer, adia propositadamente. Prefere focar-se em "pontos mortos", uma tentativa bastante nobre de elevar a interação entre estas personagens que antes desta história começar, eram também perfeitos desconhecidos. E pese a diversidade na escolha do elenco, o filme não se inibe em ir a lugares politicamente incorretos por assim dizer, como espelhar no grande ecrã a fantasia de qualquer miúdo heterossexual de 14 anos: ser levado pelo seu irmão mais velho a um bar de strip, e disparar uma arma - à qual só ele está misteriosamente qualificado para disparar.    

E não é só no conteúdo que o filme demonstra não querer ser o novo Transformers (ou mesmo o claramente mais idolatrado Terminator 2- referenciado aqui diretamente num jogo de arcada). Os irmãos vão ali revelando traços estéticos nos planos a chamar atenção para si, ao ponto de aqui e ali poderem até distrair o espectador. Perante mostra tão diversificada de portfolio, e dado o passado publicitário da dupla, há que perdoar um ou outro plano mais sonhador em câmara lenta.  

Kin, tal como a arma que "cai do céu" ao seu protagonista, é um objeto difícil de descodificar à partida. O seu potencial e funcionalidades vão sendo reveladas aos poucos, mas a sensação final é um pouco contraditória: o de por um lado ter sido feito muito com tão pouco, e ainda assim não ter concretizado o suficiente para ficar para a memória coletiva futura. Ainda assim, merece respeito acima de tudo pela maneira como os seus eventos díspares, mesmo culminando num clímax obrigatório, não aparecem programados por uma equipa de argumentistas robô, conferindo a esta ficção mais ou menos científica um toque realista tão em falta pelos lados de Hollywood. 

André Gonçalves  

«Unsane» (Distúrbio) por André Gonçalves

  • Publicado em Critica

Após ter anunciado a retirada do cinema e de quatro anos sem grandes sinais de vida, Steven Soderbergh voltou ao seu ativo tipicamente prolífico e multifacetado, na qualidade de cineasta "decatlonista", i.e. um homem que acaba por saber um pouco dos vários ofícios e artifícios desta arte, da montagem e fotografia à escrita de argumentos. 

Para provar que não tem medo de novos desafios, o realizador de Sexo, Mentiras e Vídeo regressa à câmara mas desta feita escolhe um objeto que qualquer um consegue arranjar numa loja de eletrónica: um iPhone. A ideia não é nova, e o realizador não aterrou de repente nesta nova moda: estamos afinal a falar de um dos grandes responsáveis para que a transição para o digital se tenha dado de forma tão fluída. Há um par de anos, um filme conquistava Sundance: Tangerine - um acontecimento tão palpável que a Academia já o imortalizou, colocando um dos iPhones que Sean Baker utilizou no Museu da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Há 30 anos atrás, era Sexo, Mentiras e Video a revolucionar cineastas contemporâneos e futuros. 

Soderbergh usa o iPhone não como nova brincadeira de um miúdo de 7 anos, mas para enaltecer a claustrofobia da protagonista. Essa é a primeira vitória de Unsane, um thriller que joga inclusivé com o seu aspecto, colando-se estilisticamente a títulos cheesy/série B da década de 70 ou 80 (o plano final sendo a piscadela mais óbvia).

Não é o que aparenta ser que incomoda ultimamente aqui, mas sim o que se decide e quando se decide de um ponto de vista de storytelling, sobretudo face ao trailer entretanto divulgado. A certo ponto, a veia paranóica muito evidenciada na promoção esbate-se rapidamente; sabemos com o que contar. Se por um lado, este abrir do jogo não deixa de esconder uma atitude punk e antisistema, que, observando a carreira do cineasta, temos provas mais que suficientes da sua existência, por outro, acaba por retirar grande parte do suspense que a obra aparentava possuir, sobretudo quando esta envereda por um terceiro ato a ir mais de encontro à tal imagem de thriller básico de outros tempos... 

Sendo Soderbergh, ainda assim, um autor mais consistente do que se lhe é dado crédito, mantém-se aqui uma mensagem política forte quando se discute porque é que  Sawyer (Claire Foy, a mostrar que o seu talento é também visível em qualquer ecrã) se mantém assim retida - o dinheiro sempre a ser um motif, mais ou menos silencioso, na sua obra. E claro, é impossível não mencionar o facto deste ser o primeiro filme a ser rodado com a consciência do movimento #MeToo, sobretudo quando o assédio é a temática central aqui. 

Perante o que vai conseguindo fazer e o que tem para dizer, sobretudo ao longo da primeira metade, e pela entrega total da sua atriz principal, Unsane merece uma espreitadela nos videoclubes caseiros. E perante tanto lixo em material mais caro, custa a crer que não se tenha dado uma oportunidade a este filme que é no mínimo prova que podemos sim começar a pensar nos smartphones como meios completamente válidos para contar histórias.  

 

André Gonçalves

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