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Marco Martins, realizador de «São Jorge», anuncia nova longa-metragem

Marco Martins com o ator Nuno Lopes e a atriz Mariana Nunes durante a apresentação de São Jorge no Festival de Veneza

Em promoção à série de televisão Sara, que desenvolveu em conjunto com o ator e comediante Bruno Nogueira, Marco Martins, também conhecido como realizador de Alice e São Jorge, revelou ao C7nema pormenores sobre a sua próxima longa-metragem.

Este seu novo filme será rodado em Inglaterra tendo como protagonistas Beatriz Batarda e Nuno Lopes, dois atores que integram o elenco da série: “Esta longa-metragem é a consequência de um projeto de dois que tive a desenvolver com essa grande comunidade portuguesa localizada numa zona de Inglaterra.


Beatriz Batarda em Sara

Beatriz Batarda também falou com o C7nema sobre a sua personagem neste novo projeto de Martins, que segundo ela  “faz a ponte entre uma entidade empregadora de uma zona industrial e os imigrantes portugueses em situação limite em busca de uma saída económica.” Ainda sobre o cenário, a atriz referiu que “não é à toa que ele [Marco Martins] escolhe Inglaterra”, dando indicação que o Brexit será tema recorrente nesta longa-metragem: “Com isso ele pretende levantar todas essas questões, se há ou não livre circulação dentro dos mercados e se em concreto [ela] é equilibrada ou não

De momento ainda não foi divulgada qualquer data de estreia nem o inicio de rodagem desta nova produção.

Recordamos que Sara, a série televisiva com direção de Marco Martins -apresentada no último Indielisboa - estreia no dia 7 de outubro na RTP2. Nela acompanhamos uma consagrada atriz dramática que perde a sua capacidade de chorar, iniciando com isto um percurso algo existencialista.

«Mariphasa» por Hugo Gomes

  • Publicado em Critica

Em entrevista ao C7nema, o argumentista Tiago Santos (colaborador habitual dos filmes de António-Pedro Vasconcelos), especificou o medo de um certo cinema português no simples ato de contar uma história (com isto dificultando o trabalho de argumentista no mercado cinematográfico nacional), obviamente alicerçado com outros problemas fundamentais.

Em Mariphasa, a segunda longa-metragem de Sandro Aguilar, o enredo é algo coexistente com a ambiência de um filme que envia o espectador, literalmente, a um mundo às escuras, ao invés de se assumir na imperatividade do guião. Fragmentado e envolvido num eterno jogo de mistério, Aguilar, exercitado após 14 curtas, uma longa e claro, um trabalho excecional na produção nacional, envolve-se numa obra em que os cenários se alargam infestando todo uma suposta clareza narrativa.

Contudo, e talvez repescado a sua primeira longa de estreia, A Zona, onde um simples lugar passa automaticamente a um não-lugar e sucessivamente a um estado de alma, em Mariphasa esse ciclo de passagens é desfasado por uma tendência de codificação. O espectador não possui nenhum alicerce, é somente atentado em seguir o percurso até ao fim, abraçando essas trevas, essa experiência, ou renegando todo este efeito, da mesma forma que o desconhecido se converte num medo mortalizado.

Confessamos que neste trabalho de Sandro Aguilar há todo um esforço conjunto por todas as partes, desde a fotografia [admirável] de Rui Xavier, até à sonoplastia aliada desta atmosfera tenebrosa (Miguel Cabral e Tiago Matos) e obviamente um elenco empenhado em atribuir vida a estas personagens em cacos, do ponto vista argumentativo. É cinema sensorial, isso sim, damos a mão à palmatória ao realizador (também autor do argumento), mas dentro desta panóplia de sensações, um território povoado por monstros em busca das suas respetivas redenções (o próprio título é a palavra-chave de toda esta conversa, mais precisamente por invocar a planta-antidoto à maldição do Homem-Lobo na versão de 1935), existe uma venda que o impede de se tornar mais do que o mero exercício técnico.

Em Mariphasa nada é gratuito, aliás, nada é dado como adquirido, há que merecer o filme, mesmo que o resultado seja mais próprio que universal.

Hugo Gomes

«The Predator» (O Predador) por Hugo Gomes

  • Publicado em Critica

Se não fossem os "reshoots" poderíamos contabilizar 30 anos de separação desta nova reincarnação e o filme primordial de John McTiernan. The Predator (sim, agora com um “The” como destaque) afasta-se do seu antecessor, não por questões temporais, mas como uma evolução da nossa cultura popular. Para ser mais conciso, neste caso, a diferença instala-se na maneira como vemos realmente o monstro.

Para tal, exemplificando, extraio a provável memorável citação do “jogo gato e rato” entre o alienígena afamado e um Arnold Schwarzenegger em rumo à ribalta - “You're one... ugly motherfucker!” – que entra em contraste com o primeiro encontro de uma das personagens deste novo filme com a exata criatura – “You’re one … beautiful motherfucker”. O que aconteceu em ’87 é que as personagens estavam definidas para integrar num ensaio de ação sob sangue a rolos e o nosso Predador servia somente como figura antagónica. Assim sendo, tínhamos a tendência de nos preocupar com estes humanos / vitimas porque simplesmente nos identificávamos com os mais pequenos traços das suas respetivas personalidades (mesmo sabendo que grande parte destes não fogem da rebuscada caricatura). Contudo, o foco tinha como centro os “terráqueos” ao invés do monstro. Torcíamos sim pela vitória de Arnie, uma alusão às ilimitações do intelecto humano contra a avançada tecnologia de outros mundos, ou simplesmente o “desenrasque” militarizado.

Chegando a 2018, a criatura tornou-se um símbolo e como tal existe um culto, uma veneração, uma desculpa para continuar a absorver esse simbolismo e capitalizá-lo. O foco vira para lado oposto … exatamente … para o Predador, o resto vem de acréscimo, inserido como a catapulta para lançar a figura em ação. Como consequência, somos dirigidos a meros bonecos [que nos vendem como personagens humanas] que operam sob as básicas leis do guionismo, os incitadores de emoção (ou não). Todas estas “personagens” tem um propósito, um objetivo imperativo acima de qualquer caracterização, e no seu global, em prol de um enredo secundarizado, algo que os nossos Predadores possam navegar.

Ou seja, tudo se resume a lei do mercado acima de qualquer tendência de criatividade, e aí seguimos para outro campo, o do nosso Shane Black.

O realizador, que curiosamente foi um dos atores do filme de ’87, aplica tudo o que sabe para trazer um certo “brilho”, sobretudo um humor de despacho (tão próprio das suas anteriores criações, de Lethal Weapon a Nice Guys), esforço que se revela em vão pelo terrível timing causado por uma narrativa apressada e sem clareza para construções afetivas. Aliás, todo o filme é endereçado numa edição “lufa-lufa” e puramente acidentalizada, onde os planos tendem em não “respirar” por entre cortes abruptos.

Não existe noção de dramaturgia (caso agravante indiciado na cena de escolha de máscaras por parte do pequeno Jacob Tremblay, momento introspetivo e emotivo da sua personagem, desleixado por uma transição em correria), porém, para tal é respondido com essa assinalação da cultura pop –o objetivo é o de somente reutilizar a imagem do Predador, revende-la a velhas e novas gerações e, com isso, quem sabe, disputar um novo franchise. Sem mais demoras, há que avançar, por isso que comece a caça … ao box office!

Hugo Gomes

«Joaquim» por Hugo Gomes

  • Publicado em Critica

A estreia de Joaquim vem a condizer com todo um ambiente politico-urgente que se vive no Brasil e funciona com isso numa apetência à reflexão desse mesmo sistema e da própria identidade brasileira.

Dirigido por Marcelo Gomes (Cinema, Aspirinas e Urubus), eis uma incursão na vida de Joaquim José da Silva Xavier, ou imortalmente designado por Tiradentes, uma das importantes figuras da revolução anticolonialista, antes de se tornar no estandarte ideológico. Porém, ao contrário do que poderia suscitar aqui, a fita não se revê em parâmetros patrióticos idealizados, renegando sobretudo qualquer lavagem dessa natureza, e sim, aposta num retrato subliminar dessa concentrada ala politizada. Lembramos também que o nome Joaquim remete também a uma personalidade destacada durante a Ditadura Militar, só para termos a perceção da dualidade do seu próprio simbolismo.

Mas voltando ao filme que descortina perante o modelo martirológico que Joaquim, interpretado com certa pujança por Júlio Machado, se converteu após a sua trágica sentença, Marcelo Gomes aposta numa frente em constante ebulição de um homem ambicioso quevai estagnando perante uma desilusão, no qual espelha ou se auto-recompensa através de uma proclamada luta entre classes identitárias. Em certo aspeto, este constante jogo de humilhação de um homem só entra em dialogo com Zama, a mais recente fita de Lucrecia Martel, apoiando-se ambos em discursos de deceção do sistema colonialista. Nesses termos, não querendo inteiramente seguir esse paralelismo entre as duas obras citadas, Joaquim joga em puro modo de defesa, enquanto o passado encenado tende em dialogar com um presente atribulado.

Se a culpa é dos portugueses, diversas vezes citados como um desvio de responsabilidades (como é o quase da corrupção, mencionado como algo culturalmente hereditário), o nosso Tiradentes abraça com isso um turbilhão de ideias que se escarnecem como afronta às suas próprias injustiças. Aqui entramos em território de ingenuidade que se confunde com a politica dos nossos dias, um ódio vinculado que suscita uma idealização projetada, não correspondendo a intenções demarcadas com a realidade dos factos. Como tal, Joaquim converte-se numa figura refém desta mesma “fantasia”, acreditando piamente na igualdade dos homens que não se reverá na estrutura formada dos colaboradores.

A sequência final demonstra essa “desigualdade” disfarçada, essa hierarquia que tende em operar em conformidade com um entranhado triângulo de cadeias e a tendência de ideologias divergentes que trazem resultados idênticos. A dita cena transmite com todo um detalhe sugestivo os efeitos desse iminente motim colonial, que entra em contraste com as similaridades culturais entre os diálogos babélicos entre o escravo (Welket Bungué) e o indígena (Karay Rya Pua).

Em suma, renunciando a esquematização quase imperativa das cinebiografias de hoje, Joaquim lança o seu trunfo, assumindo como um relatório perfilado da psicologia de um “bem histórico”, olhando para esses factos com a convicção de abordar o nosso existente panorama. Mesmo que o filme em si, em termos técnicos, oscile na boa vontade de um realizador incisivo e inerente (como o encanto algo narcisista da personagem de Júlio Machado quanto ao seu reflexo no lago) ou na câmara, por vezes "embriagada", que confunde o método guerrilheiro como a única solução de filmar em ambiente silvestre.


Hugo Gomes

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