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«American Pastoral» (Uma História Americana) por Hugo Gomes

  • Publicado em Critica

Ewan McGregor junta-se à mesma mesa dos atores convertidos a realizadores e ceia através de uma ambiciosa operação de adaptar o romance de Philip Roth, American Pastoral, vencedor de um Pulitzer. É certo, que existe um preconceito, se não antes uma precaução, em relação a estas passagens para o outro lado da câmara, que diversas vezes obtiveram resultados "mais ou menos" desastrosos como Brown Bunny, por Vincent Gallo, e Lost River, de Ryan Gosling, para dar alguns exemplos.

Mas, McGregor, mesmo não deslumbrando, não cede ao desastre egocêntrico e consegue um agradável ensaio de classicismo cinematográfico. O ator / realizador é o protagonista desta história que remexe em consciências obscuras de uma América em extrema rebelião, captando temáticas pouco períodos ignorados como o activismo The Weather Underground, ou do extremismo liberal que em paralelo com a sua oposição, adquirem tons de gravíssimas perturbações de percepção moral. Aliás, como refere a personagem de Dakota Fanning (ressuscitada das sombras, mas não na sua total forma) a certa altura deste enredo de gerações, "a Politica está em todo o lado, até mesmo lavar os dentes é um acto politico".

É sabido que o cinema adquiriu a sua faceta politica no preciso momento em que aprendeu a narrar, se já os irmãos Lumière criaram ensaios de tal conotação?  Todo o ato é politico, até o mero entretenimento pode ser visto numa igual vertente. Em relação a American Pastoral, existe uma clara evidência de McGregor disfarçar a politica deste seu cinema com uma emoção vinculada nos desempenhos das suas personagens, porém, sobra-nos uma réstia de impressão nesta busca pela verdade negada.

American Pastoral evita o território do thriller que por ventura poderia gerar, assume tons caricaturais do seu tempo descrito para integrar-se precisamente no foro sentimental desta família desfeita (perfeita aos olhos de fora, mas em "cacos" pelos olhos "de dentro"). Contudo, esta emocionalidade poderia tomar proporções furtivas se Ewan McGregor conseguisse controlar a durabilidade do momento, não cedendo aos fade outs estéreis, nem abraçar inteiramente a arte clássica de fazer cinema em Hollywood, que já soa como um guia "para totós".

American Pastoral pode não ser a adaptação perfeita do prestigiado bestseller, mas adquire tudo menos o efeito de desastre. Provavelmente temos em Ewan McGregor um sólido realizador. Veremos se este não será a sua única experiência no ramo.  

O melhor - A direção de atores, o agrado de ver esta "virgindade" corrompida de Ewan McGregor como realizador

O pior - demasiado preso ao cinema classicista o que impede o filme de fluir emocionalmente

Hugo Gomes 

Arranca a 6ª edição do Cinecôa, com a presença de Hugh Hudson

Arrancou hoje, dia 17 de Novembro, a 6ª edição do CINECÔA: Festival Internacional de Cinema de Vila Nova de Foz Côa, que se prolongará até ao dia 19, no Auditório Municipal da cidade. Este ano, a organização orgulha-se de contar com a presença do realizador britânico Hugh Hudson, conhecido pelo oscarizado Momentos de Glória (Chariots of Fire), que demonstrou agrado em conhecer o festival, assim como as famosas gravuras rupestres de Foz Côa.

A programação tem como composição 31 filmes, divididos em 14 países, cerca de oito longas-metragens, seis curtas e inúmeras animações para os mais novos. Tendo como "prato de entrada" a apresentação de Altamira, um filme protagonizado por Antonio Banderas, que dará as boas-vindas ao ilustre Hudson, visto ser a sua última obra estreada.  

Depois do produtor Tino Navarro ter sido homenageado ano passado, o Cinecôa vai distinguir nesta edição, o realizador António-Pedro Vasconcelos, considerado por muitos como o grande artesão do cinema comercial português. Como homenagem será exibido o seu último e mais consensual filme, Amor Impossível, que terá como sucessão um concerto levado a cabo pela sua filha, Patrícia Vasconcelos, que recentemente lançou um disco.

A destacar no dia 18, temos como grande evento o filme-concerto Nosferatu, Eine Symphonie des Grauens, o muito incontornável clássico alemão de 1922, dirigido por F.W. Murnau. O acompanhamento musical será encarregue pela Orquestra do Norte.

Para mais informações e programação completa, ver aqui

Filmin: As nossas 10 recomendações para usufruir na plataforma

  • Publicado em Artigos

Sem Título

Chega a Portugal uma plataforma Video on Demand (VoD) dedicada ao cinema independente e de autor, o Filmin, que nos presenteia com um catálogo composto por mais 500 filmes, divididos em inúmeras secções como Novidade, Clássicos e até Cinema Português. Uma alternativa para a fraca aposta de cinema alternativo nas nossas salas, onde parece não terem lugar no circuito comercial mais tradicional, o Filmin espera conseguir converter-se num dos importantes focos para os cinéfilos em Portugal.

Para acompanhar o lançamento desta plataforma, o C7nema enumerou 10 propostas para usufruir no nosso Filmin. São secções, ciclos, filmes e autores a não perder.

Jim Jarmusch

Uma coleção dos primeiros anos do realizador norte-americano, um dos mais prestigiados do cinema independente, estará à disposição do espectador. Entre os quais destacamos Para Além do Paraíso (Strangers on Paradise, 1984), a resistência de dois imigrantes húngaros em Nova Iorque, e O Comboio Misterioso (The Mistery Train, 1988), uma comédia contada em três partes.

 

Ettore Scola

Um ano depois da sua sincera homenagem a Federico Fellini em Que Estranho Chamar-se Fellini, o considerado "realizador menor" do cinema clássico italiano nos deixa com tamanha mágoa. Filmin apresentará alguns dos seus filmes mais célebres, para demonstrar de uma vez por todas que Scola nada tem de merecedor para o sufixo de "menor". Entre as recomendações, temos o poético O Baile (Le Bal, 1983) e a comédia de costumes ao extremo, Feios, Porcos e Maus (Brutti Sporchi e Cattivi, 1976).

Luchino Viscontti

O pai do "neo-realismo" italiano. Os primeiros anos de Visconti marcarão presença no catalogo, com óbvias recomendações de Obsessão (Obsessione, 1943), considerado o inaugurador do seu estilo, Noites Brancas (Le Notti Bianche, 1957), contando com um grande desempenho do sempre carismático Marcello Mastroianni, e  Sentimento (Senso, 1954), que fora um dos filmes predilectos de João Bénard da Costa.

 

Shirin

Um ensaio intenso no território do "fora-de-campo", onde catorze actrizes iranianas e a francesa Juliette Bincoche visualizam uma encenação teatral de Khosrow e Shirin, um poema persa do séculol XII. Neste filme de Abbas Kiarostami, o foco do olhar destas mulheres é invisível para o espectador, as suas faces "iluminam" esta narrativa reinventada e desconstruída através da percepção de outros.

Tangerine

Uma das propostas indies mais faladas dos últimos tempos. Tangerine, de Sean Baker, segue duas transexuais que partem numa vingança pessoal nas ruas de Los Angeles. Filmado integralmente por um Iphone, uma das surpresas vindas do Festival de Sundance. Ler a nossa crítica, aqui.

 

Cartas da Guerra

Ivo M. Ferreira [ler entrevista] concentra nas cartas escritas por António Lobo Antunes durante a sua missão na Guerra Colonial, para criar um filme bélico onde a verdadeira guerra dá-se no intimo do seu protagonista. Um dos grandes trunfos do cinema português recente. Ler a nossa crítica, aqui.

The Raid

O mais electrizante filme de ação dos últimos anos é indonésio. The Raid: A Redenção parte de uma intriga simples e bastante minimalista para "crescer" como um "best of" do cinema de ação. Tiroteios, artes marciais, explosões e muita adrenalina, ingredientes principais para compor este prato pleno.

 

Trilogia As Mil e uma Noites

O épico de Miguel Gomes estará presente no Filmin. Baseado num famoso livro persa, As Mil e uma Noites espelha um país sob um tremendo sufoco, onde tapetes voadores e sereias coabitam com políticos corruptos e juízas chorosas.

Béla Tarr

A pérola do cinema húngaro, e adepto do tempo, não condensado, mas preservado em película, possui toda a sua filmografia no Filmin. Desde o seu derradeiro O Cavalo de Turim (The Turin Horse, 2011), passando pelo muito longo, mas primoroso, Tango de Satanás (Satántango, 1994) até à sua estreia, O Ninho Familiar (Családi tűzfészek, 1977), onde demonstrava um realizador sob forte vibração politica.

 

A Regra do Jogo

Datado de 1939, Jean Renoir exibe ao Mundo a sua façanha como crítico da alta sociedade francesa, nesta ácida comédia que cresceu lado-a-lado com o Cinema. Considerado por muitos como um dos melhores trabalhos cinematográficos de sempre, o Filmin dá-nos a hipótese de redescobrir ou descobrir este grande feito da Sétima Arte. 

 

Novo Starship Troopers agradará Presidência de Trump, diz Paul Verhoeven

Com o sucesso crítico de Elle, Paul Verhoeven parece ter regressado às luzes da ribalta. Durante a reavaliação dos seus 50 anos de carreira, foi questionado diversas vezes sobre o tratamento do seu legado norte-americano por parte dos grandes estúdios, em particular às novas versões de Desafio Total e Robocop. O realizador holandês declarou que os estúdios de hoje em dia são incapazes de lidar com o sarcasmo e que a ironia, visto que ambas as versões modernas diferenciaram das suas criações graças a um tom mais dramático. Para Verhoeven, essa foi a causa do insucesso das duas obras, assim como a sequela de Instinto Fatal, em 2006.
 
Atualmente, segue as notícias de que a Columbia Tristar encontra-se interessada em "refazer" outra obra sua, Starship Troopers, que Verhoeven filmou em 1997 e que apesar do insucesso no box-office e na crítica da altura, tornou-se num objeto de culto graças ao seu circuito no home-video
 
Uma semana depois de Donald J. Trump ser eleito o novo Presidente dos EUA, curiosamente, o original Starship Troopers, foi apresentado no Film Society of Lincoln Center. Presente na sessão estava o próprio Verhoeven e o ator Casper Van Dien que integraram um QaA. Durante essa sessão, o realizador foi confrontado a responder a sua opinião sobre o eventual remake.
 
Verhoeven afirmou “Foi dito no artigo que a equipa de produção iria fielmente basear-se no livro [da autoria de Robert A. Heinlein]. Claro, eu realmente, realmente tentei afastar-me do livro, simplesmente porque senti que a matéria-prima é simplesmente fascista e militarista.” “Sente-se que ao concentrar no livro originará um filme que enquadra-se na Presidência de Trump.
 
A nossa filosofia era bem diferente dele [do livro], procurávamos uma história dupla, uma incrível e aventureira história desses jovens que iriam combater, mas ao mesmo tempo queríamos mostrar às audiências o tipo de pessoas que são, o que está por dentro dos seus corações, que sem saber, estavam a caminho do fascismo” 
 
As fontes adiantam que esta refilmagem será escrita por Mark Swift e Damian Shannon, os mesmos argumentistas de um outro reboot com estreia prevista para 2017, Baywatch - As Marés Vivas, com Dwayne Johnson e Zac Efron. 
 
Vale a pena recordar, que Starship Troopers: Soldados do Universo, seguia o percurso militar de Johnny Ricco (interpretado por Casper Van Dien), numa sociedade em "pé de guerra" com criaturas alienígenas semelhantes a insetos. O realizador atribui nesta pura aspiração de série B, uma satirização à propaganda fascista e militarista, a relembrar os tempos de Leni Riefensthal ao serviço do Partido Nazi. 
 
 

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