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«First Man» (O Primeiro Homem na Lua) por Hugo Gomes

  • Publicado em Critica

Será que precisávamos de um filme sobre os “inigualáveis” feitos de Neil Armstrong, a sua odisseia até à Lua que culminou no tão imortalizado “um pequeno passo para um homem, um grande passo para a Humanidade”? De biopics formatados e filmes glorificadores até nós andamos saturados perante uma seleção homogénea e de caracter propagandista (diversas vezes), que nos levam a questionar o porquê da existência deste tipo de produções. Para tal, atirávamos de cara à descrição simplista e incisiva de Quentin Tarantino, na qual dizia que as cinebiografias são “desculpa para atores ‘paparem’ Óscares”. Neste caso, salienta-se que Ryan Gosling está longe da cobiçada estatueta de interpretação e, em certo ponto, aleluia por isso pois em First Man prevalece um filme sobre um estudo de uma persona e não a mera esquematização do “aventurado” astronauta.

A trajetória do quarto filme de Damien Chazelle segue em sentido inverso aquilo que poderemos prescrever num projeto como este, referindo sobretudo o luto, o conflito em que a obra persiste, deixando o memorável feito para eixos secundários. Sem querendo com isto assumir uma variação de The Right Stuff - Os Eleitos (os bastidores da NASA a prolongam-se como enquadrantes da personalidade), mas First Man (O Primeiro Homem na Lua) inicia com um homem determinado a deixar a sua marca para automaticamente se converter na narrativa de um ser solitário que se refugia ao abrigo das estrelas, cercado pelos sentimentos que nem o próprio compreende.

Nisto, eis um filme que deixa transparecer uma camada de frieza, porém, existem sentimentos nesta gélida carapaça e é aí que a inexpressividade de Gosling embate como uma reação física a essas questões semióticas. Possivelmente o filme tenta encontrar um meio termo nessa demanda intimista, de forma a tornar-se percetível aos demais mortais e através dessa conciliação. First Man prolonga-se para além da sua duração necessária, recorre a “maliquices” (o nosso “carinhoso” adjetivo para aspirações a Malick) no seu registo de felicidades familiares (o persistir nos movimentos curvais da câmara e das interações captadas pelos diferentes membros) ou nas recordações-flashbacks de modo a situar o espetador mais distraído. Sim, há aqui todo um nervosismo em narrar a biografia de um “herói” sob um diferente prisma e nisso enfraquecemos uma obra tecida com o tamanho detalhe, quer pré, sob e pós. Há uma investigação que dá frutos, Damien Chazelle e a sua equipa aventuram se e desventuram se na biografia pessoal de Neil Armstrong, escrita pelo jornalista James R. Hansen, bem como uma pesquisa autodidata em compreender para depois construir um arquétipo do “verdadeiro” Neil.

O resultado está à vista e não é preciso qualquer telescópio para o ver; a história de um homem que evita o contato, sobretudo afetivo, de forma a tentar decifrar o desconhecido inerente, o pesar que sente e que dificilmente reage. A fórmula contida que encontra na Lua, a isolação como um Robinson Crusoé das estrelas, como a maior das metáforas (e aqui não estamos a julgar quem acredita ou não em tamanha expedição, o que interessa é a força da ficção no seu território simbólico). O último plano é a força disso, desse afeto negado pela falta de apreensão interior.

Todavia, se em First Man deparamos com essa instrumentalização da personalidade de Armstrong, é nos impossível não falar da composição estrutural desta odisseia pelo espaço, ou, a sua tentativa de sê-lo. Ao contrário de recentes incursões espaciais como Interstellar ou Gravity, é no filme de Damien Chazelle que deparamos com a fenomenologia da viagem, alicerçada sobretudo na edição, assim como o jovem realizador havia executado num dos trabalhos mais elogiados (Whiplash). Ao contrário das batidas sentidas com a frustração e ambição do protagonista do filme de 2014, somos agressivamente “acariciados” com uma câmara refém da sua cápsula, sensível para qualquer movimento induzido pelo dispositivo cénico e com isso, a capacidade de transmissão sensorial.

Diríamos que The First Man é um jogo de sensações, orquestrado, não só com o auxilio da edição visual, mas da própria sonoplastia. O aço que tirita, aqueles parafusos que parecem ganhar vida através de emudecidos rugidos, o som ambiente que se reduz à inexistência, a respiração ofegante de Gosling, sentido em embate com o limite do seu capacete. O "Ground Control to Major Tom", da canção "Space oddity" de David Bowie ( não está aqui, mas é como estivesse, é a nossa memória a pregar partidas, porque neste momento lado-a-lado com este Neil na sua preparação à viagem e não fora do ecrã a observá-lo como um objeto de exposição. É a maravilha do som, a sua mistura que ecoa na sala de projeção, apenas interrompida, em alguns casos, pelas doces melodias de Justin Hurwitz (partitura suave e de acordes hollywoodianos). Enfim, é a obra que se confunde como uma viagem, aliás, duas, o intimo e o físico, mas só uma torna-se crucial para este homem, personagem e sobretudo espectador.

Por isso, deixem-me defender o Damien Chazelle (que tão crucificado fora pela incompreensão à volta de La La Land). Deixem-me sublinhar o seu nome como um dos jovens mais talentosos de Hollywood na atualidade. Simplesmente deixem-me, porque o ‘moço’ tem também uma grande viagem a fazer.


Hugo Gomes

 

F.J. Ossang: «o Cinema é uma arte punk»

Em 9 Doigts, a sua quinta longa-metragem, F.J. Ossang transformou o Mundo conhecido em um território distorcido, novo e utópico. Uma realidade à parte e igualmente reconhecida, imaginada com fragmentos da nossa atual geografia e Humanidade, tal como a própria comunicação do cineasta, poeta e músico que dialogou connosco com uma novilíngua.

Não. Não se trata de uma mistela orwelliana, Ossang abordou nos com uma mistura de inglês, francês e português, palavras aqui, palavras acolá, sem hierarquia alguma, como o rock punk que tanto admira e cita como espirito do seu sendo de criação. Bastante desconhecido para a grande maioria do público, e não refiro, obviamente do mainstream, mas até mesmo da fatia mais intelectualizada e cinéfilas, que diversas vezes o colocou de lado.

O Cinema de Ossang é um cinema fruto de júbilo de um homem que pretende gozar da sua “mortalidade” como se imortalidade se tratasse, assim como as personagens que habitam este 9 Doigts, que incitavam um legado à espera de ser relembrado.

Podemos o apelidar de o Homem das Mil Artes, visto que é um cineasta, poeta e músico?

Para dizer a verdade não sou adepto desse termo. Até porque comecei a escrever poesia aos 13 – 14 anos, ela foi a minha primeira paixão, depois seguiu a música que foi incentivada com o aparecimento do movimento punk.

9 Doigts

Ou seja, resumidamente é um punk?

Diria antes que me considero num “Doutor Chance”, ao invés de um punk. Mas os meus filmes são punk sim. Aliás, o Cinema é uma arte punk.

Mas como surgiu a outra sua faceta? A de cineasta?

Depois do Conservatório de Arte e da minha paixão pelo rock n’roll, o qual tornou-se meu lema, segui para uma Escola de Cinema porque queria fazer filmes e não apenas pegar numa câmara e filmar. Queria ter a consciência do que estava a fazer. Só depois de concluída a Escola é que peguei na minha câmara e iniciei filmagens. (…) Em ’85 lancei o meu primeiro filme, uma longa-metragem filmada no ano anterior, L’Affaire des Divisons Morituri.

É curioso que na sua filmografia há uma certa relação com Portugal …

Foi uma escolha filmar Portugal, ainda considero uma anomalia, no bom sentido.

Mas dentro do território português, são os Açores que habitualmente são o cenário dos seus filmes.

Quis filmar uma obra de baixo orçamento e em preto-e-branco e imaginava um cenário perfeito para esta história. Queria filmar em ilhas, então procurava algumas para o concretizar. Os Açores foram um achado, interessei-me no arquipélago instantaneamente e, acima de tudo, são estratégicas, porque para além de vulcânicas, situa-se no meio de placas tectónicas, a europeia e americana. No fundo ficam no limiar destes dois continentes, são terras apátrias, o centro do Mundo. Um lugar de fatalidades.

9 Doigts

Falando em cenários, como acontece em 9 Doigts, transforma todo o Mundo numa espécie de não-lugar. Vê esta criação de Nowherelands e a distorção do Mundo existente como alternativa à nossa realidade? Está disposto criar uma nova realidade em oposição a esta em que vivemos?

Gosto de pensar em 9 Doigts como uma compactação das minhas obsessões e paixões, que vão desde os livros aos filmes que me inspiraram. Mas no entanto é o frisar de uma obsessão minha, diria até fascinação, em relação ao Cinema, a sua territorialização. O Cinema parte de territórios e como podemos distorcer essas fronteiras, assim como, por exemplo, podemos deslocar Buenos Aires e transformar num outro país.

Sem querer reduzir filmes a somente a influências, encontrei nesta viagem marítima uma costela de Bram Stoker, principalmente na ida de Drácula a Londres, cuja barcação The Dementer começou a ser fustigada por estranhos e assombrosos fenómenos. Tenho em conta que menciona diretamente Vampyr de John Polidori, que foi um dos percussores da obra-prima literária de Stoker.

Uma boa associação de facto. (…) Algo que também me fascinou verdadeiramente e que me fascina são os vampiros e toda a sua temática. Esses revoltados do Mundo Moderno. Possivelmente é dessa inconsciência que poderá suscitar essa associação.

E é verdade que também, tendo em conta esse lado vampírico, as suas personagens debatem muito sobre a imortalidade sem a dita imortalidade em vigor.

Os meus filmes acercam uma felicidade na catástrofe. Todos os meus personagens pensam nesse lado pós-vida, como serão relembrados e como anseiam ser relembrados a todo o custo.

Quanto às influência noir de 9 Doigts? Quer falar sobre isso?

Como havia referido 9 Doigts é um conjunto das minhas paixões, e o Cinema é uma delas, inclusive os noir, gangsters e dos de aventura. Afirmo que o cineasta que mais me influenciou foi Fritz Lang, e o Spy, possivelmente o filme que me fez amar este subgénero. Lang era mais que um expressionista do que normalmente é descrito, é quase como um romântico pornográfico e os seus filmes tem um certo carisma vampírico. (…) Outra influência é Joseph von Sternberg, o responsável pelo subgénero dos filmes de gangster e de toda esta linguagem envolvida, anos antes de Scarface. (…) Para além de tudo sou um admirador dos filmes de gangsters nipónicos.

Dharma Guns (The Starkov Sucession, 2000)

Porventura, Takashi Kitano entra nessa degustação?

Bem … gosto de filmes de yakuzas, mas tenho preferência nos exemplares mais antigos.

Como vê o Cinema Contemporâneo, é sabido que lhe olha com algum desdém?

Aprendi a amar os filmes que via na minha educação cinematográfica, ou seja na Escola de Cinema. Adquiri o gosto por esse Cinema. Se calhar sou um inadequado, mas posso dizer que vejo muitos filmes.

E a sua relação com a plataforma streaming como o Netflix.

Amo o DVD, com menos de 20 euros podemos comprar um e ter um filme na nossa posse. Ver quando quisermos, levarmos por onde queremos. Com isso, não faço downloads nem sequer recorro ao streaming, falta aí a sensação física que é possível com o DVD.

Mas trabalharia com a Netflix se assim fosse proposto?

Na França há uma certa aversão ao Netflix e, para ser sincero, nunca ponderei em trabalhar para eles. Já ouvi dizer que eles dão liberdade aos cineastas, se é verdade ou não, sou incapaz de responder. Mas não me sinto interessado. (…) No meu caso, os meus filmes são difíceis de fazer, não em termos de recursos, mas porque me debato em encontrar financiamento. Tenho a clareza que tenho um determinado e ávido público, porém, nada de grande que possa assinalar indústria. Como tal, recorro a coproduções, não quero ficar restringido ao dinheiro dos contribuintes. Possui um espirito demasiado revolucionário para isso (…) relembro os livros de André Malraux, quase todos sobre revoluções e ele próprio um revolucionário. Mas não me interpretem mal, não sou um sujeito focado na politica, só mais rock n’roll.

Quantos a novos projetos?

Estou a pensar fazer um filme de guerra. Possivelmente misturar com poesia para ver o que isso dá. Eu gosto de experimentar, por vezes resulta, outras vezes nem por isso. Os meus filmes são isso, experimentações, frutos da minha liberdade de filmar.

Criadores de «Sherlock» preparam nova série sobre Drácula

Mark Gatiss e Steven Moffat, os criadores da série Sherlock, avançarão com uma nova produção sob a alçada da BBC e Netflix. A dupla será responsável por trazer Drácula ao universo do streaming em formato de minissérie.

Sempre existe grandes histórias para ser contadas com o grande Mal. O que tem de especial Drácula é que Bram Stoker criou um herói dentro da sua vilania” declaram Gatiss e Moffat, dando a entender que a série terá como base o livro original de Bram Stoker, sobre o alter-ego do Príncipe Vlad, o Empalador, condenado a preexistir na eternidade como um monstro.

Family Film Project numa 7ª edição sob a demanda da compreensão da imagem

Arranca hoje a 7.ª edição do Family Film Project, o Festival Internacional de Cinema de Arquivo, Memória e Etnografia que decorrerá até dia 20 de outubro, tendo a programação praticamente concentrada no Cinema Passos Manuel, no Porto. Este novo tomo terá como abertura a reposição do A Grande Nuvem Cinza, do brasileiro Marcelo Munhoz, a obra vencedora da edição de 2017 do evento.

Neste ano, para além da competição internacional, o Family Film Project destacará a presença do artista visual e cineasta Daniel Blaufuks que trará consigo um seleção de quatro obras experimentais da sua autoria. Já os teóricos norte-americanos Bill Nichols, um dos mais importantes nomes da reflexão moderna cinematográfica, e Paula Rabinowitz, socióloga e historiadora, apresentarão duas masterclasses. A primeira, In the Beginning, encarando como análise das cenas introdutórias dos documentários e o segundo, intitulado por Cold War Dads: Fathers and the National Security, que através do recurso do arquivo e da memória tem como âmbito dissecar os efeitos da Segunda Guerra Mundial nas questões identitárias.

Para além de Passos Manuel, Maus Hábitos receberá dois eventos especiais, o Ciclo de Performances com Joana Craveiro, Jorge Gonçalves e ̶M̶i̶g̶u̶e̶l̶ Bonneville, e ainda uma Vídeo- Instalação sob a coordenação de Gabriela Vaz Pinheiro. Já o Coliseu do Porto Ageas será espaço para um atelier apoiado concretizado pelo Balleteatro Serviço Educativo orientado por João Apolinário, com o intuito de introduzir para os mais novos o mundo das artes plásticas e criativas.

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