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Entre a "arte pela arte" e a fogueira das vaidades: começa hoje (17/05) o Festival de Cannes

O festival mais pomposo do mundo começa hoje (17/05) e termina a 28. Enquanto abrem-se as passarelas para a fogueira das vaidades fazer o seu desfile entre tapetes vermelhos e coquetéis à beira-mar, ficam para os suspeitos do costume a tarefa de salvar o conceito romântico de "arte pela arte".

É um "dream team" autoral numa programação irrepreensível: este ano a Seleção Oficial é de tal ordem precisa que nem desordeiros como Nicholas Winding Refn ou Paolo Sorrentino estarão por lá para a guerra dos apupos. E arte visceral... haverá?

Marion Cottilard volta dos mortos

Arnaud Desplechin e o seu Ismael's Ghosts garantem uma abertura caseira – com elenco de luxo: Matthieu Amalric, Charlotte Gainsbourg, Marion Cotillard, Phillippe Garrel. Amalric é um realizador prestes a iniciar um novo filme – quando a sua antiga amada (Cotillard) "retorna dos mortos" e torna a sua vida um inferno. Ele então remete-se à reclusão junto dos seus fantasmas. Por estas horas já exibido à imprensa (a sessão de gala é à noite), parece ter recebido uma ensurdecedora indiferença

De resto no alinhamento francófono há um François Ozon com seu (quase) infalível filme anual, Amant Double, o "artista" Michel Hazanavicius com Le Redoutable e o veterano Jacques Doillon com Rodin. Mas a maior promessa será Robin Campillo, que ainda não teve tempo de dececionar: fez apenas dois filmes e Eastern Boys, o anterior, é magnífico. O novo chama-se 120 Beats per Minute.

Murros no estômago e futurologia

Entre aqueles que raramente desiludem estão os cotados para atingir aquele píncaro que faz da arte uma experiência visceral. O maior de todos é Michael Haneke que, segundo previsões astrológicas bastante "precisas", vai levar a Palma de Ouro com Happy End: o cineasta é genial, Isabelle Huppert está no elenco e o filme é sobre um campo de refugiados no norte da França.

Se tudo correr bem numa segunda-feira potencialmente eletrizante (22/05), os presentes levarão um duplo murro no estômago: a fazer companhia ao austríaco estará Yorgos Lanthimos – que conseguiu segurar a pressão de uma estreia internacional com A Lagosta e agora traz The Killing of a Sacred Deer.

I'm afraid of americans

Da América as propostas circulam entre o indie-nova-iorquino hipster e as falsas promessas de Sofia Coppola. Entre o melhor espera-se Todd Haynes, cujo Wonderstruck tem sessão já amanhã, particularmente porque o último plano de Carol foi iluminado; já Noam Baumbach trás The Meyerowitz Stories e os irmãos Safdie (Benny e Josh) Good Time. Quanto à Sofia Coppola, que devia ir a Cannes escondida numa burca depois de Bling Ring, surge com The Beguiled.

Sem Liga dos Últimos

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O húngaro Kornél Mundruczó (de Deus Branco) nunca falhou o festival: cinco filmes, cinco presenças. O novo chama-se Jupiter's Moon. Por seu lado o russo Andrey Zuyagintsev, outro habitual, vem da megaunanimidade de Leviathan e aparece com Loveless, enquanto o ucraniano Sergei Loznitsa trás A Gentle Creature.

O naipe de asiáticos é do mesmo patamar de relevância: tem Naomi Kawase (Radiance), Bong Joon Ho (Okja) e Hong Sangsoo (The Day After).

Por fim, mas não menos importante, o sueco Ruben Östlund (The Square) vem do consagradíssimo Força Maior e Lynn Ramsay deixa a incógnita sobre o que virá com You're Never Really Here depois do estupendo Temos que Falar sobre Kevin ser seguido pelo desastre de As Armas de Jane (quando abandonou as filmagens um dia antes de elas começarem). Talvez o grande corredor por fora será o turco Fatih Akin, muitos anos depois do Urso de Ouro do Head-on- A esposa turca.  O projeto chama-se In the Fade.

"O governo de larápios" e o "esfacelamento dos trabalhadores": uma entrevista com Affonso Uchôa e João Dumans

 

Uchôa e Dumans são os realizadores de Arábia, projeto brasileiro que faz parte da Competição Internacional do IndieLisboa – em curso na capital até o dia 14. O C7nema conversou com os responsáveis por este tipo particular de "road movie" que acompanha a vida dos trabalhadores pobres que emigram no interior do Brasil à procura de um lugar melhor.

Na história, Cristiano (Aristides de Sousa), depois de sair da prisão por um pequeno delito, perambula por locais onde encontra diferentes tipos de opressão – desde a rural até a da fábrica. Para além da questão social e do que definem como o "esfacelamento da classe trabalhadora" brasileira, o filme aborda ainda o caráter existencial da condição do trabalho.

Tanto este quanto o filme o filme de estreia de Uchôa, a docuficção A Vizinhança do Tigre, tiveram a sua estreia internacional no Festival de Roterdão.

Em relação a Vizinhança do Tigre, que foi dirigido pelo Affonso Uchôa e coescrito pelo João Dumans, havia um retrato de um pequeno universo, era restrito a um bairro de Contagem (cidade do interior do Brasil). Em Arábia há um elemento de "road movie", há um personagem andarilho que vai conhecendo diversas realidades...

Affonso Uchôa: Essa diferença de "amplitude espacial" vem muito da diferença de natureza entre os dois filmes: o Vizinhança tinha um pacto de sangue com a realidade dos atores e o facto de eles ficarem muito no seu próprio bairro, sem muito trânsito pela cidade. Era algo fundamental do quotidiano deles.

No Arábia nossa inclinação pela ficção é muito maior e, por isso, podemos levar nossa imaginação a diversos lugares. Há também algo nessa diferença que me parece fundamental: no Vizinhança a opressão está localizada e o fato de eles estarem confinados sempre no mesmo espaço é a sua face mais visível. Os centros das grandes cidades no brasil são hostis ao pessoal da periferia. O bairro se torna, então, um refúgio.

No Arábia, a opressão está por toda parte. Não é somente uma oposição entre centro e periferia, e sim a evidência de que pessoas como Cristiano estão fadadas a serem sempre "o excluído" em qualquer parte que estejam. No Vizinhança a periferia é uma geografia, no Arábia ela é um estado de espírito, uma espécie de condição de existência.

Também há um movimento no sentido da docuficção, naturalista, para algo mais assumidamente ficcional...

João Dumans: A opção pela forma em cada um desse filmes tem a ver com o que queríamos mostrar. Em A Vizinhança do Tigre o importante era o retrato daquelas vidas, e também os jogos e as representações que os atores criavam entre si. Então era necessário que o filme fosse mais aberto à realidade.

No caso do Arábia, havia um impulso de natureza mais literária. E na criação do próprio personagem, no desejo que ele existisse, talvez houvesse também algo de utópico. Por isso a sua história – e sobretudo a maneira como ele a conta – tinham que ser construídas do início ao fim. Mas a base continua sendo a realidade, especialmente a realidade do ator, Aristides, que é o mesmo nos dois filmes.

Nesta história de migrações pareceu-vos importante retratar a vida dos trabalhadores pobres, da precariedade e, particularmente na sequência final, o "sonho" do Cristiano, remetem mesmo à uma questão existencial...

João Dumans: Acho que a questão social e a questão existencial estão ligadas no filme. Interessava-nos falar da vida dos trabalhadores, especialmente daqueles que vivem à margem, porque para nós são essas as verdadeiras histórias do nosso tempo: a dos excluídos, dos que não se adequam, dos que devem permanecer calados e, de preferência na invisibilidade. No Brasil isto segue uma lógica política e social perversa – que remonta inclusive, ao período da colonização.

 

A questão é que o cinema brasileiro já explorou essa tragédia até onde pôde e, muitas vezes, de maneira paternalista, fazendo da pobreza um elemento de chantagem emocional. Era justamente isso que queríamos evitar. Queríamos que a história se situasse no nível do olhar do personagem, e que uma reflexão sobre si mesmo também fizesse parte desse processo.

A questão sindical, propriamente, aparece em dois momentos, mas sob um ponto de vista diferente. No primeiro caso, há Barreto, que conseguia unir trabalhadores para conquistar melhores condições. Muitos anos depois o personagem Cascão já não acredita neles, que "não faz diferença".

Affonso Uchôa: Para nós era importante fazer com que a trajetória do Cristiano fosse ao mesmo tempo íntima e histórica. Nesse sentido, queríamos que ele vivesse seus dramas pessoais ao mesmo tempo que testemunhasse (e vivesse) algo importante da história brasileira: o esfacelamento da identidade da classe trabalhadora.

Essa questão é fundamental no Brasil atual, no momento em que o (ilegítimo, lembremos) governo atual patrocina uma reformulação na legislação trabalhista que transfere para os patrões o poder de colocar limites nos direitos do trabalhador. Os anos de domínio de um partido de trabalhadores no Brasil não trouxeram uma representação coletiva mais forte.

Hoje, no Brasil, eles não têm nenhuma organização que os consiga organizar em uma luta comum e, em breve, se esse governo de larápios continuar a ter a liberdade que tem, não terão nem leis que os defendam da pura e simples exploração. Entre Barreto e Cascão vemos um pouco da ruína da união entre trabalhadores. Nosso personagem a perceberá de uma maneira muito pessoal, e dará a sua resposta, íntima, silenciosa, para essa solidão.

Drama de Marco Bellocchio abre hoje (05/04) a Festa do Cinema Italiano

Fai Bei Sogni (Sonhos Cor-de-Rosa na edição portuguesa, que estreia comercialmente a 06/04) chega com o selo da Quinzena dos Realizadores (Festival de Cannes) e a longa experiência do septuagenário cineasta para abrir a 10ª edição da Festa do Cinema Italiano. O festival vai decorrer em Lisboa entre 5 e 13 de abril, agregando ainda cidades como Porto, Coimbra, Setúbal e Almada.

Segundo o diretor Stefano Savio, em conversa com o C7nema, a grande qualidade do filme é tirar alguma obviedade com relação à forma como o livro que o inspirou está estruturado. Enorme sucesso em Itália, a obra autobiográfica de Massimo GramelLini conta a história de um menino cuja a trajetória na fase adulta é marcada pela morte da mãe quando tinha nove anos. "Bellochio mantém uma sobriedade, um distanciamento típico do seu cinema – ele fica a olhar de longe os personagens sem cair no sentimentalismo", avalia.

Rindo à italiana

Um dos destaques deste ano é uma homenagem à Commedia all'italiana, que incluirá uma mostra de dez filmes de Dino Risi – um dos mestres do estilo que perdurou entre o final dos anos 50 e o início dos 70 e gerou uma boa quantidade de obras-primas e outros grandes cineastas, como Ettore Scola e Mario Monicelli. A retrospetiva é objeto de um artigo especial (brevemente). Ainda no universo cómico, a seção Amarcord vai buscar ainda Lo chiamavano Trinità (Trinitá, o Cowboy Insolente), clássico popular dos anos 70.

Mundos barrocos

De olhos postos no passado outro destaque é a possibilidade, imperdível particularmente para fãs de cinema de terror, apreciar no grande ecrã o potentado visual de Suspiria (1977). Acompanhado pela partitura mítica de Goblin, Suspiria é um dos grandes clássicos da história de género. Com os direitos comprados pela Il Sorpasso, a associação que organiza a Festa, o filme terá várias exibições no El Corte Inglés – antes de uma planeada edição em DVD.

No universo da animação e, igualmente, outro exemplo do gosto italiano pelos espetáculos exuberantes e barrocos, Allegro non Troppo, de Bruno Bozzetto, junta seus delírios visuais ao Bolero de Ravel – numa das obras mais importantes do estilo.

"São ambos filmes estilizados, refinados...", diz Stefano Savio, "...ainda que, no caso de Alegro non Troppo, tenha havida uma preocupação um pouco maior com a história".

Dramas juvenis

A competição traz, como habitualmente, seis títulos – que, este ano, poderiam compor metade da secção Gerações da Berlinale – embora muitos tenham passado mesmo é pelo Festival de Veneza.

Isso porque, à grande exceção dos dilemas filosóficos de Orecchia, os demais são todos centrados em temas jovens – sejam coming-of-age dificultados por uma família destruída (La Pelle dell'Orso), por uma sociedade hostil (Un Bacio, Fiore), ou pelos estreitos limites de uma Testemunha de Jeová que se relaciona com um delinquente no intenso La Ragazza del Mondo.

Em Piuma os jovens são mais crescidos – embora não propriamente marcados pela maturidade quando uma gravidez inesperada vai-lhes marcar a passagem forçada para a vida adulta.

Autores de sucesso

A mostra de cinema contemporâneo italiano apresenta 14 títulos – entre os quais trabalhos da veterana Cristina Comencini (Qualcosa di Nuovo) e as antestreias nacionais de Se Deus Quiser, que contará com a presença do ator e realizador Edoardo Léo, e Le Confessioni. Neste último caso, o realizador Roberto Andó, que também virá a Lisboa, envereda pela sua conhecida veia política vinda de "Viva a Libertade", trazendo novamente o incontornável Toni Servillo no protagonismo. Já 7 Minuti traz à capital portuguesa a atriz Volante Placido para apresentar a sessão.

Perfetti Sconosciusi é, certamente uma das grandes apostas, dado o currículo de Paolo Genovese, que já compareceu há Festa há três anos com o brilhante La Familgia Perfetta. "Genovese é um argumentista muito interessante. Como ele tem muito sucesso em Itália, ele faz um compromisso com as produtoras – que, a cada três filmes mais 'comerciais', ele pode 'fazer um à sua maneira. Que terminam por ser bem-sucedidos também", assinala o diretor da Festa.

Por seu lado a sequela de Smetto quando Voglio, que leva o título adicional de Masterclass, traz o misto de comédia com crítica social onde os italianos são especialistas. A criação de Sidney Sibilia trata de génios académicos desempregados que criaram, no primeiro filme, uma droga perfeita – tornando-se, claro, traficantes.

Desafios

Já o filme de encerramento, In Guerra per Amore, segue de perto as pisadas do magnífico  La mafia uccide solo d'estate, que venceu a competição há três anos. O realizador Pif (abreviatura de Pierfrancesco) novamente cruza uma história de amor aparentemente inofensiva com um vigoroso retrato desta instituição milenar da Sicília – a máfia.

Para os fãs de delírios, experimentos e "maluqueiras" em geral, 2017 vê o retorno da "Altre Visioni", uma seção dedicada a isso mesmo – obras ousadas que desafiam mais radicalmente o espectador. Serão quatro filmes: Spira Mirabilis, My Italy, Le Ultime Cose e I Tempi Felici Verranno Presto.

Os eventos paralelos incluem ainda sessões musicais (ver aqui), encontros que discutem o cinema italiano, uma sessão sobre o famoso museu de Ufizzi, de Florença (Firenze e Gli Uffizi), entre outros.

Banda recria clássicos de Ennio Morricone e Nino Rota no cinema São Jorge

Os clássicos de Sérgio Leone ou O Padrinho tornaram-se míticos não apenas pelas suas extraordinárias qualidades, mas também a bandas sonoras inesquecíveis. É exatamente a isso que se propõe a Spaghetti Fusion Project – por outras palavras, uma revisita a alguns grandes momentos da história musical do cinema. As canções serão executadas em simultâneo com as imagens dos filmes. O concerto decorre no próximo sábado (08/04), no âmbito da Festa do Cinema Italiano, no cinema São Jorge (Lisboa)

Para além das obras de Ennio Morricone e Nino Rota, o grupo investe também em outras paragens, como os tons eletrónicos e sombrios com os quais Goblin "assombrou" os grandes momentos de Dario Argento nos 70 – neste caso específico, o de Profondo Rosso (O Mistério da Casa Assombrada).

O Spaghetti Fusion Project foi fundado por membros da Orquestra Metropolitana de Lisboa e dedica-se exclusivamente a este tipo de recriações.

Mísia-Nápoles-Elena Ferrante: outra fusão

Em outro momento musical da Festa, o universo da escritora de best sellers Elena Ferrante (A Amiga Genial) vem à tona no espetáculo Napoli Sentimental, onde a cantora Mísia interpreta canções de alguma forma ligadas ao imaginário da cidade italiana. No mesmo evento, serão lidos trechos das obras da escritora napolitana. O concerto decorre também no São Jorge, no dia 9. O espetáculo é inédito e foi criado especialmente para o festival.

A Festa do Cinema Italiano decorre entre 5 e 13 de abril em Lisboa, Porto, Almada e Setúbal.

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