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De «American Psycho» a «Vice»: as metamorfoses de Christian Bale

Estreia esta semana Vice, o novo filme de Adam McKay (The Big Short; Anchorman), que segue o empresário e político norte-americano Dick Cheney. Christian Bale encarna Cheney durante os anos em que assumiu o cargo de Vice-Presidente dos Estados Unidos da América sob a liderança de George W. Bush. Vice é assim a segunda colaboração entre o realizador e o ator após o sucesso de The Big Short, filme também sobre a realidade económico-política americana. Tal como esse filme lhes valeu nomeações aos Oscars nas respetivas categorias em 2016, este ano o duo volta a repetir o feito. Bale acumula então já quatro nomeações, tendo vencido a estatueta de melhor ator secundário em 2011, por The Fighter. Vale a pena relembrar a eclética carreira deste ator.

As Origens


American Psycho e The Machinist

O percurso do ator galês começou na segunda metade da década de 1980, quando ainda jovem teve papéis em filmes de Steven Spielberg (Empire of the Sun) e de Kenneth Branagh (Henry V). Nos anos seguintes, Bale trabalhou com Jane Campion (The Portrait of a Lady) e Todd Haynes (Velvet Goldmine), mas o papel que lhe garantiu relevo na indústria chegou em 2000, quando protagonizou American Psycho. Numa interpretação niilista e mordaz, Bale dá vida a um bancário hedonista que cai numa violenta espiral de fantasias sexuais. Opulento e corpulento, o charme com que atrai as suas vítimas depressa se transforma em delírio. Numa obra que hoje é já considerada um clássico, Bale prova ser capaz de suster todo o filme com a sua performance sedutora e frenética.

Aproveitando o sucesso desta persona, Bale participou em vários blockbusters, como Equilibrium (2002), filme de ficção-científica em que tenta salvar o mundo da realidade opressiva e distópica em que está mergulhado. Foi em The Machinist (2004), contudo, que voltou a espantar as audiências com uma transformação total. O corpo atlético e o ar bem-parecido com que habitualmente aparecia em ecrã foram substituídos por uma aparência subnutrida e doentia. Para interpretar um trabalhador industrial que sofre de insónias crónicas e de uma perturbação obsessivo-compulsiva, Bale perdeu quase 30kg ao seguir uma dieta que consistia apenas em café e maçãs. Numa atuação paranoica e vulnerável, o ator entregou-se completamente ao papel e consolidou a sua presença na indústria cinematográfica americana como um dos mais proeminentes atores de método («method acting»). E rapidamente viu-se envolvido em projetos de escala muito superior.

O Ator Consagrado


The Dark Knight

No espaço de um ano, Bale voltou a impressionar ao ganhar 45kg de músculo para dar vida ao novo Batman de Christopher Nolan. Em Batman Begins (2005), o ator reafirmou o cavalheirismo que já havia sugerido em American Psycho, bem como o seu lado violento e tempestuoso. Curiosamente, a personagem que lançou a sua carreira tem várias semelhanças com Bruce Wayne, a personagem por que ficou mais conhecido: a fortuna e charme que as caracterizam durante o dia reprimem a fúria e brutalidade que vêm ao de cima pela noite. Bale considerou Batman «demoníaco» e interpretou-o como tal, dando-lhe uma voz grave que mais se assemelha a um rosnar animalesco. O sucesso deste reboot garantiu-lhe o papel nos dois filmes subsequentes da trilogia de Nolan, The Dark Knight (2008) e The Dark Knight Rises (2012). Estes títulos foram sucessos brutais na bilheteira e estabeleceram o estatuto de Bale como um ator de renome no cinema americano.

Durante o período em que interpretou Batman, o ator voltou a colaborar com Christopher Nolan, em The Prestige (2006), e Todd Haynes, em I’m Not There (2007), e prosseguiu com uma carreira virada para os filmes de ação, protagonizando os blockbusters 3:10 to Yuma (2007) e Terminator Salvation (2009). Por esta altura, trabalhou também com Terrence Malick em The New World (2005), filme em que encarnou o explorador britânico John Rolfe, e com Werner Herzog, em Rescue Dawn (2006). Neste épico de guerra baseado em factos reais, Bale interpreta um piloto americano que é capturado por aldeãos vietnamitas e feito prisioneiro. Tanto num filme como noutro, a sua prestação revela um lado resiliente e humanista, de uma sensibilidade que ainda não havia exibido nos papéis que até então interpretara.


The Fighter

As transformações físicas que tinham posto Bale no mapa voltaram a garantir-lhe notoriedade quando participou em The Fighter (2010), realizado por David O. Russell. Para esse papel, voltou a perder 15kg para dar corpo a Dicky Eklund, um ex-pugilista toxicodependente que treina o seu irmão mais novo em boxe. De novo, a corporalidade da personagem e toda a sua aparência fazem o ator desaparecer por detrás dela. Tal foi reconhecido e Bale foi premiado largamente. A receita foi repetida em 2013, quando tornou a trabalhar com David O. Russell, em American Hustle. Desta vez, a metamorfose do ator tornou-o quase irreconhecível: careca, com mais 20kg do que o habitual e curvado, até os restantes atores do elenco tiveram dificuldades em identificá-lo. O seu empenho em alcançar a postura certa para a personagem foi tal que no final das gravações descobriu ter feito uma hérnia discal. Mais um preço a pagar com o corpo por uma carreira feita de transfigurações.

O Trabalho Recente

 
Ford v. Ferrari

Após tantas mutações e uma dedicação admirável, hoje nunca se sabe como Bale aparecerá em ecrã. Em The Big Short (2015), encarnou um neurologista-tornado-investidor com síndrome de Asperger, numa atuação estranhamente cómica. Já como capitão do exército americano no século XIX, participou em Hostiles (2017), numa performance austera e sóbria pontuada de traumas e agonia. Este ano, volta ao grande ecrã para interpretar uma das mais enigmáticas personalidades políticas americanas, assumindo de novo um corpo e uma estatura completamente diferentes. Ainda em 2019 estreará nos EUA o filme Ford v. Ferrari, em que o ator atuará como o engenheiro e piloto Ken Miles. Se não podemos esperar constantemente uma metamorfose brutal de aparência de filme para filme, podemos contudo contar com um Bale inteiramente entregue aos seus papéis e moldado a rigor às personagens a que, a cada vez, o ator verdadeiramente dá vida.



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