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«Big Little Lies»: Banda sonora, a quarta personagem principal

No texto previamente publicado no c7nema sobre Big Little Lies foi ocultada propositadamente a referência a um dos elementos mais importantes deste projeto de Jean-Marc Vallée, a banda sonora.

Cada vez mais, os realizadores dão enfoque aos detalhes. Não à fotografia ou aos cenários, mas sim a elementos como o guarda-roupa e, sobretudo, a banda sonora. Todos temos memórias acerca de músicas e dos momentos em que as ouvimos pela primeira vez, ou de algo que aconteceu enquanto as ouvimos e depois existem aquelas músicas que associamos imediatamente a um filme, uma série ou a uma personagem. Na minissérie, Vallée deu a cada uma das personagens o seu próprio relacionamento com a música, que revelam muitos segredos a um espectador mais atento. O realizador usa a música para criar humor, desenvolver o argumento e revelar o caráter das personagens. Em entrevista à Variety, afirmou com humor ser "um DJ frustrado que faz filmes".

O colossal trabalho de supervisão musical da série coube à veterana Susan "Sue" Jacobs. Habituada a trabalhar com o realizador, cedo percebeu que para Jean-Marc a relação intima entre as personagens e as músicas é essencial. Celeste (Nicole Kidman), com os auscultadores nos ouvidos e assombrada por uma dor luxuriante, ouve «Straight from the Heart» de Irma Thomas. Jane (Shailene Woodley) usa Death in Vegas e Flaming Lips para purgar as memórias traumáticas do passado enquanto conduz o seu carro ou a correr na praia. Madeline (Reese Witherspoon), até nas escolhas musicais é mordaz. Numa cena - numa refeição bastante tensa - ouve Sade e, propositadamente, pergunta se é Adele. As personagens dançam, cantam, discutem e divagam através da música - tudo feito e pensado propositadamente para que o espectador ouça cada música e tenha em atenção a forma como a personagem a ouve ou encara. Em nenhum, nenhum momento a música é usada somente para efeitos de "ruído de fundo".

É interessante que, apesar da série ter adultos como personagens principais, cabe ao elenco juvenil - a filha de Madeline, Chloe (Darby Camp) e Ziggy (Iain Armitage), o filho de Jane - a tarefa de serem os responsáveis pela introdução de sonoridades contemporâneas. Alguns espectadores podem achar que a relação, quase sobredotada, destas crianças com a música pode ser suspeita mas não podemos ignorar o facto de que o nome Ziggy é uma referência clara a Ziggy Stardust (David Bowie) e Chloe tem um pai bastante hipster Ed (Adam Scott). "Precisamos de música nas nossas vidas, para amar, para evoluir, e Chloe sabe disso", explicou Vallée à Entertainment Weekly. "Ela faz playlists para pessoas  e contamina todos os que estão à sua volta". Nas suas listas nomes como PJ Harvey é misturado com o soul moderno dos Alabama Shakes e o som retro do magnífico tema principal da série, «Cold Little Heart» de Michael Kiwanuka. Coube também à pequena Chloe colocar nos tops mundiais o tema «River» de Leon Bridges.

Ziggy pesquisa a música online, o que explica algumas das suas escolhas mais irreverentes, por exemplo, a "viagem" a Woodstock (1969) em que Grace Slick cantou «White Rabbit» com os Jefferson Airplane ou «Papa Was a Rolling Stone», enquanto aprende a coreografia dos The Temptations via YouTube.

Vallée e Jacobs não colocam nem escolheram as músicas para a série no intuito de mostrarem conhecimento ou bom gosto musical, colocaram-nas para servirem de alicerce à história e as personagens e para desafiarem o espectador a "encaixar as peças do puzzle" que é a vida aparentemente perfeita das mães de uma periferia rica da Califórnia. Para o realizador e diretora musical, uma música tem que fazer um trabalho especifico e permanecer fiel à vida das personagens.

Tema principal da série


"Cold Little Heart" | Michael Kiwanuka. Álbum: "Love & Hate"
Realizado por David Helman com Keith Stanfield. 

 


1. Michael Kiwanuka: “Cold Little Heart”
2. Charles Bradley: “Victim of Love”
3. Martha Wainwright: “Bloody Mother Fucking Asshole”
4. Leon Bridges: “River”
5. Kinny: “Queen of Boredness” [ft. Diesler]
6. Agnes Obel: “September Song”
7. Alabama Shakes: “This Feeling”
8. Charles Bradley: “Changes”
9. Irma Thomas: “Straight From the Heart”
10. Villagers: “Nothing Arrived” (Live From Spotify London)
11. Zoë Kravitz: “Don’t”
12. Conor O’Brien: “The Wonder of You”
13. Daniel Agee: “How’s the World Treating You”
14. Ituana: “You Can’t Always Get What You Want”



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