Menu
RSS


Retrospetiva Abel Ferrara: o crepúsculo da moral («King of New York», 1990)

Belo como passeios de limousine ao pôr-do-sol – eventualmente o ponto alto da filmografia de Abel Ferrara. A história não podia ser mais simples: um dealer, Frank White (Christopher Walken), sai da prisão depois de 12 anos. Resolve acertar contas com criminosos e reaver o seu estatuto. Entre seus velhos assistentes está o enfant terrible Jimmy Jump (Laurence Fishburne); três polícias incorruptíveis os perseguem.

Sem grandes reviravoltas a graça de tudo está em outro lado. Visualmente o sabor a plástico dos anos 80 ainda produz faísca: num dado momento o gângster fuma no banco traseiro; tem uma Melanie loira (Carrie Nygren) a seu lado, uma Raye morena (Theresa Randle) do outro. Neste cenário de adornos, ele veste Armani, enquanto o habitual cortejo de vagabundos, miseráveis e criminosos esfacela-se ao fundo.

Tudo sem a rapidez de um vulgar filme de ação: os planos são longos, evocativos, a decoração dos interiores inspira requinte. Longos travellings em ambientes de luxo inscrevem Frank White na paisagem dos ricos de Nova Iorque. Todos jantam no mesmo lugar e comem do mesmo prato. Num diálogo, alguém diz que ele voltará para a prisão. Resposta: “depende da qualidade dos meus advogados”. De volta: “Pensei que não acreditasses no nosso sistema legal”. Tréplica: “Nós somos o sistema legal”.

White é mais que um protagonista criminoso com boas maneiras; quando é chamado pelo guarda prisional, está a ler; acusado de ser “amante de negros” (para além da ironia com o nome do personagem a referência vem trazer, três anos depois de “China Girl”, a multirracialidade da megalópole através dos afro-americanos), ele anda a recrutar bandidos como se estivesse a instituir uma irmandade. Também quer construir um hospital. O anúncio do projeto lhe rende espaço na televisão; o astro Freddie Jackson canta no evento, o presidente da Câmara agradece. White é o “rei de Nova Iorque”.

Hoje em dia é mais normal encontrar (no cinema fora de Hollywood, bem esclarecido) exemplares que escapam aos moralismos fáceis vendidos para ingénuos. Na altura a amoralidade do filme conseguiu ser enervante: teve uma antestreia atribulada e um jornalista da Total Film chamou-o de “abominação”.

Compreende-se. Já la vai um terço de filme sem um único personagem “decente”, mas desta vez cabe dizer que Ferrara até foi generoso com as instituições estabelecidas. O trio de polícias moralmente exemplares tem atores carismáticos a encarna-los: Victor Argo, Wesley Snipes, David Caruso. Não é que possam fazer muito: depois de efetuar uma prisão, veem o arguido ser solto após fiança. Só a decisão de um deles de abandonar as normas de conduta os possibilita avançar. Afirmação do personagem de Caruso: “Pensávamos que fizéssemos o certo, que a lei servisse de alguma coisa. Mas ela só favorece o criminoso”.

De notar ainda uma referência a “Nosferatu” a meio do filme, marcando o início de uma associação de Ferrara com vampiros – que serão o centro de uma analogia fundamental em “Bad Lieutenant” e o tema essencial do muito filosófico “The Addicted”. O vampirismo visto como um traço de condição humana inultrapassável: uns sugam, outras desfalecem.

Num filme onde as propostas ideológicas estão reduzidas à uma precisão minimalista (no argumento inicial de Nicholas St. John a associação de White à uma causa “proletária” era muito mais enfatizada), há mais um diálogo fundamental entre o criminoso e o polícia Bishop. Um trecho – White com a palavra: “O país gasta 100 bilhões de dólares por ano em drogas. E não é minha culpa. Enquanto estive preso só piorou. Não sou o problema. Sou apenas um homem de negócios”.

SPOILER: um facto anedótico segundo Abel Ferrara. Para ele a diversão maior foi “matar todo o f.d.p. do filme. Adoro quando me falam em fazer uma sequela. Bom, só restou o personagem do advogado de 75 anos. O único que o supera é ´4:44 - Last Day on Earth’, onde matei todos os seres humanos!”.



Deixe um comentário

voltar ao topo

Atenção! Este website usa Cookies.

Ao navegar no website estará a consentir a sua utilização. Saber mais

Entendi

Os Cookies

Utilizamos cookies para armazenar informação, tais como as suas preferências pessoais quando visitam o nosso website. Os cookies são pequenos ficheiros de texto que um site, quando visitado, coloca no computador do utilizador ou no seu dispositivo móvel, através do navegador de internet (browser). 

Você tem o poder de desligar os seus cookies, nas configurações do seu browser, ou efetuando alterações nas ferramentas de programas AntiVirus. No entanto, isso poderá alterar a forma como interage com o nosso website, ou outros websites.

 Tipo de cookies que poderás encontrar no c7nema?

Cookies estritamente necessários : Permitem que navegue no website e utilize as suas aplicações, bem como aceder a eventuais áreas seguras do website. Sem estes cookies, alguns serviços que pretende podem não ser prestados.

Cookies analíticos (exemplo: contagem de visitantes e que páginas preferem): São utilizados anonimamente para efeitos de criação e análise de estatísticas, no sentido de melhorar o funcionamento do website.

Cookies funcionais

Guardam as preferências do utilizador relativamente à utilização do site, de forma que não seja necessário voltar a configurar o website cada vez que o visita.

Cookies de terceiros

Medem o sucesso de aplicações e a eficácia da publicidade de terceiros. Podem também ser utilizados no sentido de personalizar widgets com dados do utilizador.

Cookies de publicidade

Direcionam a publicidade em função dos interesses de cada utilizador. Limitam a quantidade de vezes que vê o anúncio, ajudando a medir a eficácia da publicidade e o sucesso da organização do website.

Para mais detalhes visite http://www.allaboutcookies.org/

Secções

Quem Somos

Segue-nos

Contactos