Retrospetiva Abel Ferrara: a irmandade das mulheres oprimidas («Ms .45», 1981) - C7nema
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Retrospetiva Abel Ferrara: a irmandade das mulheres oprimidas («Ms .45», 1981)

A “Ms. 45” do título (referência à pistola que dará “voz” a uma “leading lady” muda) é Thana (Zoë Lund), uma solitária e tímida jovem que trabalha num atelier de costura. A passar a ferro, facto de relevância. Depois de ser violada num beco por um homem mascarado (vivido pelo próprio realizador), encontra outro malfeitor com o mesmo desígnio dentro da sua casa. Um dia difícil, com muitas consequências.

Esteticamente “Ms 45” surge fincado entre a estreia visceralmente delirante de “The Driller Killer” e o rumo para a convencionalidade de “Fear City”. Ferrara passa do “slasher” (serial killers com lâminas) para o “splatter” (sacos de lixo com cabeças, mãos e outras iguarias espalham-se pela cidade) sem fazer, no mais preciso sentido da expressão, “filmes de terror”. No pano de fundo e de viva memória também está uma ala muito particular da “exploitation” que reinou nos anos 70 – os “rape-and-reveng films” (a mulher violada que se vinga) – ao lado de cinemáticos processos de enlouquecimento urbano como encontrados em “Taxi Driver” ou, ainda antes, em “Repulsion”, clássico de Roman Polanski (há uma referência explícita a este através de um animal morto).

Diferente destes dois últimos e do seu projeto anterior Ferrara não aborda este processo de “perda da razão” através de uma concessão ao olhar subjetivo onde a próprio fio condutor da história se perde: há aqui o cliché da velhota coscuvilheira para criar suspense e levar a história adiante. Tal como nos “rape-and-reveng films”, há um nexo causal-explicativo óbvio para a desintegração mental da protagonista. A sua loucura é servida objetivamente ao espectador através das suas ações e não do seu próprio olhar.

Em termos de tema, o universo de Ferrara é marcado pelo machismo violento – frequentemente degenerando em abuso físico. Em “Ms. 45” as mulheres do atelier estão sempre sujeitas a um amplo naipe de rebarbados que servem para justificar a jornada da heroína – ela própria convertendo-se voluntariamente em alvo fácil para atrair os machões e fazer “justiça”. Ao fundo, a personagem recorrente de todo o seu cinema dos anos 80 – a selva urbana de Nova Iorque.

SPOILER: Este processo justiceiro ganha contornos de uma Cruzada literal com um final pleno de ironia: num baile de máscaras o anjo exterminador disfarça-se de freira – uma das obsessões de Ferrara, para não só vingar-se a si própria como para estender a sua justiça a toda a Irmandade das mulheres oprimidas – nos filmes e fora deles.



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