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Doclisboa: falando de arte para uma lebre morta

O cinema que importou no Doclisboa recém-finalizado (29/10) deveu-se mais ao conteúdo (“Risk”, “Martírio”, “No Intenso Agora”) do que à forma (aquelas egotrips metidas a hipsters com 100% de atitude e 0% de relevância que grassaram na Competição Portuguesa). Mas nem sempre a atitude foi condenada a um nicho estéril.

Um dos filmes exibidos no festival foi “Beuys”, de Andres Veiel. E Joseph Beuys conseguiu irritar meio mundo porque suas performances tinham um significado e foram feitas numa época onde todas as esperanças eram válidas.

Para uma “meia” biopic de tal artista talvez não fosse aconselhada uma história cronológica, mas de lógica beneficiava um pouco o filme de Veiel; ainda assim, episódios selecionados (baseados em vídeos da altura) dão conta de mostrar um furacão em andamento.

“How to Explain Pictures to a Dead Hare”

“Beuys” é sobre performances e rebeldias. É sobre política, revolução – sobre idealismo e crença. Fala de um tempo em que o artista podia ter a arrogância de assumir um papel tutelar na educação do populacho e autointitular-se “xamã”.

Diferente de muitas demolições pós-modernas, esta tinha um propósito. Toda essa pedagogia orientava-se no sentido de destruir intermediários (universidade, museu, galeria) – a demolição institucional era libertadora. Todos podem ser artistas. Na música, lá por 1977, os punks diziam o mesmo.

As performances: numa das primeiras, “trancou” os frequentadores da galeria de arte fora desta; durante três horas, o público assistiu pela janela o artista perambular pelo local e a dar explicações sobre “arte” para uma lebre morta que carregava com um dos braços. Foi em 1965.

Em 1974 foi à América e de lá saiu sem pisar em solo yankee. Carregado numa ambulância para uma galeria, lá conviveu uma semana com um coiote. Sem falar com ninguém para dizer: merchants, vocês nada significam. Foi de volta para o aeroporto e intitulou a performance de “I Like the America and America Likes Me”. Really?

Transcendência de perfumaria

Este “anarquismo” era, claro, inconcebível com organizações estáticas. Quando este avatar de energia ambulante se direcionou para o ativismo político nem o Partido Verde alemão, que ajudou a fundar, pôde com ele. Os Verdes talvez estivessem certos: uma coisa é ser franco-atirador, outra coisa é transformar fazendo parte da estrutura. De qualquer forma, há um depoimento elucidativo: “Não creio que exista um fim quando se entra numa luta, não existe um estado perfeito”.

Voltando à Competição Portuguesa do Doclisboa (com possivelmente uma ou duas exceções), de facto há que se continuar a lutar por algo nestes tempos obscuros, mas não com perfumaria barata para os amigos. Desta cartola já só saem lebres mortas.



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